08 dezembro 2005

ENTREVISTA

Waldir deu entrevista a alguns jornalistas, algumas não foram publicadas na íntegra e serão reproduzidas aqui.


ENTREVISTA

Quando e como despertou para a poesia?

Iniciei a escrever alguma coisa, aos cerca de 12 anos de idade. Pelos idos de 1960. Nesta época, já havia tido contato com alguns autores através da leitura e a poesia era algo que me fascinava. Obviamente que coisas simples e constituídas do desejo de escrever coisas sérias, como convém a um adolescente. Recordo-me que possuía um caderno, semelhante aos diários das adolescentes de minha época. Ao invés de um diário, continha o que eu posteriormente, com medo de ser presunçoso, definia como uma escrita vertical. Via de regra eram emoções, primeiras paixões, primeiros encantamentos e também decepções com o mundo socialmente injusto. Porém, também me perseguia a idéia de temas sisudos. Lembro de algumas que falavam do cigarro e das angústias que voavam com a fumaça. O cigarro tinha um simbolismo muito forte de maturidade, precocidade, adultez. Isto era o que um adolescente naquela época desejava aparentar. Decorava poemas e dentre estes, recordo um de Antonio Tomaz que era muito divulgado em antologias didáticas de literatura nacional intitulado O palhaço, que descrevia o contraponto entre o ofício do riso, a expectativa da platéia e a condição pessoal de dor, ante o infortúnio da esposa morta. Na realidade era uma tragédia para descrever a máscara, a dissimulação que todos os seres humanos vivenciam de alguma maneira. Posteriormente tive participação em jograis e esquetes na escola, e lembro que recitávamos poemas de Manoel Bandeira dentre outros. Eu me identificava muito e ainda gosto de Bandeira, me imaginava a escrever um dia como ele. Claro que li Olavo Bilac, Casimiro de Abreu entre outros de quem nunca me afeiçoei muito. Nesta fase também descobri Castro Alves de quem memorizei O caminheiro e Navio negreiro e tinha verdadeira afeição por seu livro: Espumas Flutuantes. Li Jorge de Lima, cuja obra, continuo a redescobrir toda vez que a releio. Uma das minhas alegrias foi ter conhecido pessoalmente o poeta Ascenso Ferreira através de meu pai, que trabalhava no Recife antigo e onde pela primeira vez pude vê-lo com o seu chapelão, quando tomávamos leite maltado numa galeria antiga, (Galeria Lafayete se não me engano) que ainda hoje existe, na Av Rio Branco. Não posso esquecer de Carlos Pena Filho, cuja afeição nasceu do seu poema grafado em destaque no bar Savoy, na avenida Guararapes: Por isso no Bar Savoy / o refrão vai ser assim/ são trinta copos de chope/ são trinta homens sentados/ trezentos desejos presos/ trinta mil sonhos frustados. Mais tarde um pouco, veio a influencia que Vinicius de Morais nos despertava. Era um poeta, compositor, cantor, boêmio dos nossos dias, além do que um diplomata, o que conferia ao poeta a possibilidade de ser blindado do preconceito arraigado de que os poetas eram apenas sonhadores, lumpens, párias, desregrados. Outro lado que fascinava em Vinícius era ter escrito muito sobre a figura feminina, o amor, ter dado uma definição dialética sobre a finitude do amor e da relação amorosa e, também de haver escrito algo com conteúdo social como O operário em construção. Tínhamos um pequeno jornal no Colégio Nóbrega, “Tribuna Estudantil”, confeccionado no mimeógrafo, e de quando em vez eu escrevia mais prosa do que poesia. Lá escrevi um artigo sobre Emmanuel Mounier intitulado “O personalismo”, tema de uma de suas obras e de sua filosofia. Curti o existencialismo, como especulação filosófica que visava analisar a experiência humana em todos os seus aspectos teóricos e práticos, individuais e sociais, instintivos e intencionais, e mais que isto, os irracionais da vida humana. O homem, sua angústia e sua existência me foram temas muito importantes e que ainda hoje o são. Estes foram passos anteriores ao descortinamento de Marx, Engels e outros. Com o passar do tempo eu até me espantei um pouco com o que escrevíamos e abordávamos àquela época de poucos meios de comunicação como a televisão e Internet dos dias atuais. Isto quem sabe contribuísse também para lermos mais e amadurecermos mais o espírito. Eu lia sobre muitas coisas, não só poesia. Era um hábito semanal ir ao cinema de arte nos sábados pela manhã e em seguida percorrer as livrarias da rua da Imperatriz: a Livraria Imperatriz do Jacó e a Editora Nacional. Estas eram as principais. Lá terminávamos as manhãs na conversa com os livreiros, no folhear dos livros e sempre na compra de algum, que o dinheiro permitisse. Isto regado às trocas de idéias que eram verdadeiras curtições sobre a leitura. Bem próximo, na rua da Aurora, tinha a loja de discos da fábrica Rozemblit, com as suas cabines individuais, que arrematava o nosso itinerário cultural. Afora isto, emprestávamos, trocávamos e comentávamos discos e livros com os amigos. Recife tinha muitos cinemas, incluindo os dos bairros, e chegávamos a assistir todos. Íamos a shows musicais, cirandas, brincávamos carnaval de rua, assistíamos peças no Teatro Popular do Nordeste (TPN) e freqüentávamos com igual prazer os concertos da orquestra sinfônica no teatro Santa Isabel, as mostras de fotografia, pintura, escultura ou ao chorinho que Canhoto da Paraíba tocava na praia de Rio Doce. Uma das coisas importantes para mim, foi o fato de ter estudado por algum tempo no seminário, onde o apelo à cultura era fator marcante. Lá pude aprender um pouco de literatura, de latim e ter contato com o grego. Outro aspecto foi o de ter tomado gosto pela filosofia e pelo entendimento do mundo. Cedo aprendi que o ser humano é fascinante, intrigante e ao mesmo tempo infinitamente complexo. Posteriormente, estes aspectos vieram a se sedimentar um pouco mais com a compreensão da história da sociologia e da política. Para nós naquela época o tripé Marx, Darwin e Freud eram pensamentos essenciais. José Saramago, neste seu recente lançamento, o livro As Intermitências da Morte, faz uma citação interessante na abertura: “saberemos cada vez menos o que é um ser humano”. Quando cheguei ao curso de medicina eu não era um ser propenso ao cérebro biológico, bioquímico, microbiológico. Muito menos, afeiçoado a biparti-lo em físico e psíquico, senão ao que se intitula de uma visão holística, ou seja, o homem é um todo indivisível, e não pode ser explicado pelos seus distintos componentes. Estes fatores tiveram e têm uma repercussão direta na minha visão profissional médica e no que eu escrevo. Penso que o que norteia os passos, é a concepção de mundo que vamos esposando. Mesmo, de modo mutante. Sempre de maneira enriquecida pelo ato de conviver. Viver deve incluir conhecer sobre todas as formas; por isso que é desejaria poder sempre viajar muito mundo afora, não para ostentar, não só para divertir-me mais especialmente para conhecer as culturas e civilizações humanas. Diria que tive a sorte, se assim podemos chamar, de encontrar muitas pessoas sensíveis e boas no meu caminho, por outro lado aprendi que necessitamos desenvolver em nós um terreno propício a enxergar na vida, nas pessoas e na natureza as entrelinhas que estas nos põem a reflexionar.
Ao longo do curso médico nunca deixei de ler e de escrever algo fora do campo estrito da medicina. Tínhamos um jornaleco da turma que batizamos de O asterisco, que ajudei a criar e para ele escrevia. É interessante hoje perceber, que passados trinta anos de formados em medicina, vez por outra encontre em colegas de turma, aqueles que não lhe esqueceram pelas posições que adotou, pelas coisas que escreveu ou pelas idéias que defendeu. A escola médica é muito árida e não contempla com uma formação humanística aqueles que lá aprendem a lidar com as dores, o sofrer e a limitação máxima do ser humano que é o corpo que padece e que sucumbirá um dia.
Devo dizer também que o complexo diagnóstico e terapêutico com que nos enfronhamos no percurso do aprender médico, tende a nos mitificar como semideuses. Terminamos por apreciar estas relações desafiantes, que mais e mais nos distanciam da natureza genuína de cuidadores do equipamento total, que compreende: corpo, alma e as relações. Isto posto, nos colocaria melhor aparelhados ao cuidado dos outros.

Os extremos entre lidar com vida e doenças e com versos?

Sem tentar auto rotular-me, acho que tenho uma natureza especulativa, perfeccionista e também melancólica. Acresceria a tudo isto, um lado contemplativo e meditativo que me ajuda a viver e a escrever versos. Gosto muito de escutar. Navego razoavelmente na vida me impondo um respeito ao científico e metodológico, tanto diante do fazer técnico como do viver. Acho que o método científico pode nos ajudar a compreender e apreender tanto o saber técnico quanto o vislumbre da vida. Claro que isto não ocorre de um modo apenas consciente, nem rígido. Porém, interfere positivamente na nossa responsabilidade ética, e sobre a responsabilidade dos nossos atos. Lidar com a vida dos outros impõe uma atitude de receptividade muito grande, um despojamento de preconceitos, um recolocar-se freqüente na perspectiva do outro. O consultório clínico oferece múltiplas modalidades de promoção da vida. Por outro lado, exige competência, atualização constante e sensibilidade. Isto demanda um esforço pessoal e físico. Por sua vez, o médico é atávicamente ligado ao fazer individual. Isto nos retira a visão circunstancial de nós mesmos. Não é em vão que reagimos de modo mais atrasado às mudanças sociais e às relações profissionais e sociais. É mais fácil encarar o mundo como necessitado do nosso paternalismo e do nosso clientelismo. E toda ação clientelista ou paternalista padece do mal do individualismo. Incluo este aspecto, pois na minha concepção, corrobora com os demais, agudizando as dificuldades para progredirmos e mais eficazmente desempenharmos a complexa função de zelar pela saúde, coletiva e individualmente. Sintetizando, acho que para quem possui algum vislumbre, sensibilidade e dedicação, especialmente à clínica, o ser médico impõe certos acréscimos de sofrimento superiores a algumas profissões. No limite disto insiro a poesia na sua acepção grega, como a ação de fazer algo. Algumas vezes creio que a medicina me rouba e me usurpa a poesia, noutras reconheço que esta me enriquece de vivências humanas e sociais que não possuiria caso não fosse médico. Uma coisa eu tenho como certa: devo mais à medicina e ao convívio com os seres humanos como médico, do que estes me devem. Neste último livro fiz questão de dedicá-lo também aos meus clientes, de modo humilde e reconhecido, por serem razão do meu ofício e de grande parte do aprendizado da vida.

As coincidências com Augusto dos Anjos ?

Veja bem, eu senti-me bastante lisonjeado em você haver identificado lembranças de Augusto dos Anjos em algum dos meus versos. Pessoalmente nunca havia pensado nisto, nem tido esta pretensão. Não sou crítico, apenas exponho-me como um poeta. Todos os poetas devem ter experimentado em algum momento a angústia existencial como nascedouro de seus versos. O poeta não é um filósofo na acepção estrita do seu significado, todavia a poesia sempre será um ato filosófico, posto que consegue projetar a razão da sensibilidade e da emoção em palavras. Por isto que se afirma que os poetas como os loucos sabem ver na escuridão. A poesia não possui um objeto, ela pode expressar todos os objetos ou objeto algum, pode apenas provocar emoção, comoção ou existência estética. A poesia é arte, a filosofia é ciência. A filosofia é resposta às perguntas, a poesia é indagação medonha. A poesia é angústia existencial repisada há séculos de história da humanidade e nunca exaurida. Neste contexto, este meu último livro, O Avesso da Pele, enfeixa, entre outros, dois temas o tempo, representado pelo poema o avesso do tempo e sentimento, no poema título o avesso da pele. Estes temas até então têm estado presentes nos três livros que publiquei : Cantos da Vida de Amar, Amor que sai do Casulo e este agora.
A “palavra encantada com a literatura medicinal em simbiose”, como você o põe tão belamente e magnânimamente em seu prefácio ao meu livro, sem dúvida denuncia o meu eu médico, no uso de uma simbologia que me encantou. Poder discorrer sobre a pele, a superfície, o transitório e seu avesso: o sentimento, o âmago, a poesia.
A poesia de Augusto dos Anjos contempla de forma peculiar, única, a angústia do eu, da alma como anima, do corpo social e do corpo humano, as angústias na interface aguda do viver. No meu parco entendimento, seu linguajar não só médico como biológico, microbiológico, escatológico, advindo com maestria da vida acadêmica, disseca a alma de um corpo humano ferido e vulnerável, que transcende em poesia de um altíssimo quilate literário. É assim a poesia. Já li e reli Augusto dos Anjos várias vezes e desde muito.
Mas eu gostaria de revelar minha paixão não narcisista, assim considero, pelo ser humano. Dela decorre não uma contemplação ufanista da bondade, mas uma constatação sofrida da sua limitação, da sua perversidade, da sua destrutividade. A história da humanidade nos repete isto a cada pedaço. Bem maior que sua finitude, a arrogância e incompetência do ser humano para conviver, é objeto de angústia.

Quais os autores com quem mais dialoga em termos de influência?

Pergunta difícil de responder. São vários os poetas que leio por prazer e com prazer. Já citei alguns, mas acresceria Ferreira Goullart, Cecília Meireles, T.S.Eliot, W.H.Auden, Garcia Lorca, Victor Jara, Drumond, João Cabral de Melo Neto, Joaquim Cardoso, Augusto dos Anjos, Chico Buarque, Caetano Veloso, Patativa do Assaré, dentre outros. Não consigo estabelecer um vínculo de influência, não por que rejeite a idéia de ser de algum modo influenciado. Se diz que a identidade é a medida do amor, contudo não me sinto maduro para fazer a leitura desta influência.

Como analisa a produção da poesia paraibana?

Considero muito rica a nossa produção literária e artística. Não sou crítico literário, sou poeta e sou leitor. Tenho lido muita coisa boa e tido contato com poetas anônimos que me deslumbram. Na nossa Paraíba se tem publicado razoavelmente bem. Até o que meramente serve a intuitos auto-promocionais. Existe uma modalidade na qual a poesia se insere que é através das letras musicais. Temos verdadeiras preciosidades no nosso cancioneiro sob diversos ritmos. Existem letras de rock como de forró que são primorosas. O que nós continuamos precisando é de uma divulgação maior do que fazemos e de que nós próprios, enquanto consumidores de cultura, percamos a atitude do colonizado, que apenas compra e dá valor ao que não é produto seu. É difícil você encontrar uma pessoa que presenteia com um livro ou um disco, de um autor paraibano. Isto é sem dúvida marca de uma certa submissão cultural. A identidade artística senso latu, é algo que nenhum povo pode prescindir. Ainda são poucas as verbas empregadas como incentivo à cultura. E mesmo que estas fossem suficientes, seria necessário existir um espaço de divulgação e de incentivo ao consumo e distribuição da nossa cultura. Não devemos produzir coisas para inglês ver e ficarmos decantando o fato de sermos citados. Necessitamos de um consumo interno e externo, fruto do reconhecimento dos nossos valores. Para isto carecemos de primar pela autenticidade. Gostaria de ver nas ruas e logradouros de nossa cidade, ao invés de nomes de pessoas vivas e às vezes cuja única contribuição social foi haver ocupado um cargo público; que existissem nomes de poetas, artistas, escritores, compositores, fotógrafos, músicos, pintores, artesãos etc. de significado real para nossa cidade, ou até mesmo nomes de obras literárias. Não seria emblemático e significativo?
Aproveitando este assunto, eu diria que a poesia se inclui no seio de uma comunidade humana, como algo que reflete os seus valores, o seu sentimento, o seu filosofar. Eu já afirmei em uma outra entrevista que o poeta não é um filósofo na acepção estrita do seu significado, todavia a poesia sempre será um ato filosófico, posto que consegue projetar a razão da sensibilidade e da emoção em palavras. Por isto que se afirma que os poetas como os loucos sabem ver na escuridão. A poesia não possui um objeto, ela pode expressar todos os objetos ou objeto algum, pode apenas provocar emoção, comoção ou existência estética. A poesia é arte, a filosofia é ciência. A filosofia é resposta às perguntas, a poesia é indagação medonha. A poesia é angústia existencial repisada há séculos de história da humanidade e nunca exaurida. Por isto tem de ser comungada em contrição.



Como se define do ponto de vista estilístico?

Escrevo versos livres. Já escrevi poemas processo em uma certa fase, mas foram poucos. Se me permitir, citarei um poema incluído neste meu último livro. Penso que ele daria conta desta indagação:

COMO SE ESCREVE UM VERSO?
Um verso se escreve
sem se saber
que o verso escorre
como o leite
o vinho
o mel
o fel
a paixão
a tristeza
a dor.

Sem se saber
que é orgânico,
antes de ser mineral.

Sem se dar conta
de ser alfaiate
sendo tecelão.

Waldir Pedrosa Amorim

Um comentário:

Valdina disse...

Amigo Waldir, não me surpreende ler coisas tão significativas e de um conteudo literário imenso.Li tua entrevista e me deliciei com o teu pensamento. um abraço imenso com muita amizade. Valdina