04 dezembro 2005

Fala e Agradecimentos do Autor por ocasião do lançamento, para um público de cerca de 200 pessoas no Parahyba Café.

ALGUMAS PALAVRAS


Devo-lhes algumas palavras
e a mim reflexões.

Ainda menino, encontrei-me com palavras.
Palavras ditas, escritas, solfejadas
palavras de adormecer e de viajar
palavras descomprometidas
de ser sonho ou realidade,
palavras que a ânsia cessava.
Balbucios singelos de minha mãe, e minha avó.
Que repisavam as estórias, os contos da carochinha,
e as cantigas de ninar.

Cedo encontrei-me com outras,
entintadas em papel
tipografando os meus anos
em molduras.

Aneladas me chegaram,
e se apoderaram de mim.
e a existência delas
tornaram-nas fato central em minha vida.
como o afirmava Jorge Luiz Borges.

Sua alquimia:
a sazonalidade
a tolerância com o tempo
estarem ao meu lado, disponíveis
em tudo quanto eu fazia..

As palavras. (descobri).
São códigos d’alma
que não se apartam da vida.

A poesia é desassossego!

Antes dela,
a sensibilidade
congênita e a adquirida
dá escuta ao caminho,
e aos caminheiros
que vêm e vão.

Anteriores a ela,
A percepção
Dá guarida ao cotidiano
com suas repetições
e seus revezes.
Fornecendo lenha e cera
à angústia e à alegria.

Sua precursora,
a alma acumpliciada de si
dolorosamente,
despedaça grilhões individuais.

Transmuta-a
na outra face,
que é pedaço,
e é metade,
sendo inteiro.

Vê-la pública
em papel livro,
é comparti-la
sem resgatar-lhe a metade
que pertence a quem a sentirá.
Modo vário,
peculiar e diverso.

Sem objeto único,
a poesia
é todos os objetos
ou objeto algum.

Sem materialidade
é emoção é comoção.

Sem ser ciência
é ato filosófico.


Sem ser história,
é linguagem ancestral
repisada pelos homens.

É escultura
sem cinzel.
.
Sem pincel
é estética.

Sem lentes
é fotografia

Sem ser resposta
é indagação medonha.

Sem ser pão, leite ou mel
é necessária
e é pobre a vida
em sua ausência.

Aqui estou, pela magnanimidade de vocês de receberem o que escrevo.
Aqui está um poeta convidando amigos para o convívio com suas palavras. Não deixará de estar aqui o médico, o cuidador que convive com as dores e com a promoção da saúde. Mas se me permitirem, peço que aceitem hoje este pedaço que não se amputa e que ao contrário se revigora no outro pedaço.
Neste limite insiro a poesia na sua acepção grega, como a ação de fazer algo.
Algumas vezes creio que a medicina me rouba e me usurpa a poesia, noutras reconheço que esta me enriquece de vivências humanas e sociais que não possuiria caso não fosse médico. Uma coisa eu tenho como certa: devo mais à medicina e ao convívio com os seres humanos como médico, do que estes me devem.
Assim, fiz questão de dedicar este livro também aos meus clientes, de modo humilde e reconhecido, por serem razão do meu ofício e de grande parte do aprendizado da vida. Ele é O Avesso da Pele que espero interaja, pergunte, arrepie. Nele os meus arrepios interiores, feitos palavra.
Gostaria de revelar minha paixão e respeito à natureza, à terra, ao rincão, às cidades, aos seres humanos.
Ela decorre não de uma contemplação ufanista da bondade, mas de uma constatação sofrida da limitação, da perversidade, da destrutividade humanas. A história da humanidade nos repete isto a cada pedaço.
Maior que a finitude, a ganância, a arrogância e incompetência do ser humano para conviver, é objeto de angústia.
É também objeto da poesia que não é extemporânea.
Este também é o avesso da humanidade que necessitamos nos inteirar para aprimorá-la. Repito quando posso, uma frase atribuída ao budismo: nós precisamos ser a transformação que queremos no mundo.

Eu terminarei estas palavras, com agradecimentos a vocês e também a algumas pessoas significativas em minha vida.
Minha companheira Maria de Fátima, que um amigo que aqui se encontra apelidou-a de primeira rima. Ela é a minha casa, a minha morada, o meu porto, e aqui estou me apossando das palavras do escritor e poeta português que admiro, José Saramago, no oferecimento de seu último livro à sua companheira Pilar. Não encontrei depois que o li, nada que pudesse superá-lo para expressar a sua importância na minha vida.
Tenho três filhos: Pedro, Paulo e João cuja amizade, a cumplicidade e a troca de experiências me impulsionam a vida.
Minha irmã, Nelizinha, que aqui se encontra, e que percorreu mais de perto comigo a infância e por quem nutro um grande carinho.
Aos amigos que me ajudam a reproduzir o dia a dia do trabalho, Maria José, Tatiana, Fabiany, Débora, Sônia, Érica, Gracinha e Nildo.
Aos companheiros do Grupo de Apoio a Portadores de Hepatite e Transplantados de Fígado - da ONG Confiantes no Futuro.
A Editora Manufatura na pessoa de Geraldo Maciel (Barreto), que fez um trabalho pontual e de boa qualidade.
Ao amigo, músico e compositor Arimatéia Piauí que nos brinda nesta noite com a alegria da música e voz do seu conjunto instrumental e pelo belo repertório que escolheu para tornar mais alegre esta noite. Permitam-me divulgá-lo pelo seu telefone, pois muitos já o solicitaram que o fizesse.
Contatos: 83- 93163310.
Ao Parahyba Café, nas pessoas de Marconi e Bob e à Usina Cultural Saelpa na pessoa de Cleide. Espaços que engrandecem a cultura paraibana.
Ao poeta, escritor e jornalista Ricardo Anísio, que escreveu as orelhas do meu livro anterior (Amor que Sai do Casulo) e que brindou este livro com um esmerado prefácio.
Posso dizer que conheci Ricardo Anísio pelo que ele escreve e do mesmo modo, este pode conhecer-me pelo que escrevi e que prontamente não se negou a avaliar. Fui afoito, em sendo um poeta bissexto e aprendiz de submeter minhas palavras ao seu crivo rigoroso, honesto e sincero que a Paraíba e o Brasil conhecem pela competência.
Por fim permitam-me relatar brevemente como cheguei a cometer a veleidade de publicar em 2001 o meu primeiro livro: Cantos da Vida de Amar Poemas e Solilóquios.
Submeti-o ao amigo, escritor e poeta, Ronaldo Monte e este, com paciência e dedicação criticou-o, sugeriu, baniu alguns e discutiu cada poema, dos inúmeros que eu havia recolhido do meu baú desde 1964. Ronaldo prefaciou o meu primeiro livro e não só isto, como acompanhou a sua editoração pela Editora Universitária.
Todos o conhecem pela sua sinceridade, sensibilidade e o seu desprendimento, que se tem tornado um referencial no incentivo à nossa produção literária. Os dois últimos livros que publiquei passaram por este mesmo processo, junto com Ronaldo, com quem eu divido a existência destas três ousadias que cometi. O que não significa que este assine embaixo delas, sua importância como escritor é do tamanho da sua alma, que é enorme e não me arvoraria a equiparar-me consigo.
Ronaldo é um cronista de mão cheia, tem vários livros publicados entre nós e estará lançando no ano vindouro o seu primeiro romance em lançamento nacional, pela editora Objetiva como parte da série Fora dos Eixos.
Especialmente a ele o meu muito obrigado e a Gloria, psicóloga, psicoterapêuta, uma mente aberta e sensível, sua mulher, sua cúmplice, leitora em primeira mão e incentivadora de sua carreira de escritor. O carinho deles transborda e nos contamina positivamente.
Este livro é dedicado a meu pai, Wandelcy Dias de Amorim que aqui não pode estar e cujo pequeno verso nele contido passo a ler:

Dedicatória

Recife,
rio Beberibe de águas claras,
vegetação das margens
qual casa mata.
meu pai ensina-me a nadar e a
pescar piabas.

Meu pai calado
sobre o leito do nosso rio,
completa hoje 88 anos.
Aprecio mares.

Dedico-lhe este livro,
afluente de sua nascente
caudalosa
1/08/05

A todos o meu muito obrigado.

Waldir

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