04 dezembro 2005

Prefácio do Jornalista, Poeta e Escritor Ricardo Anísio

À Flor da Poesia, e da Pele

Ricardo Anísio
Jornalista, Poeta e Escritor (*)


O poeta irlandês Dylan Thomas, que era um crítico ferino, ousava dizer que a maior das artes é a poesia. Partindo dessa alardeada supremacia, os garimpeiros de versos seriam figuras bafejadas pelo divino. Talvez nem sejam, posto que a efemeridade da criação e a flamejante luz do deslumbramento, não conformam o sacerdócio poético. “O Avesso da Pele” é um livro tênue e denso ao mesmo tempo, tem sopros arejados de quase-prosa e profundidade de imagens poéticas capazes de bastar ao leitor mais arguto.
Em seus Sete capítulos, ou variações de sinfonias em torno do mundo empírico, há uma conjunção de sentimentos e poucos signos metafóricos. Os poemas de Waldir Pedrosa Amorim parecem torpedos, ora líricos ora bélicos. E o belicoso aqui não se refere atrofiadamente ao vulgar da violência, mas às batalhas da alma contra injustiças afiveladas contra o cotidiano.
Do primeiro Tomo que empresta título ao livro descortina-se uma sincronia entre o médico-poeta Waldir Pedrosa e o poeta-acadêmico de medicina Augusto dos Anjos; embora em estilos díspares. O poema “Pele” tomado como exemplo grifa a simbiose da palavra encantada com a literatura medicinal. “Interface com o mundo/ invólucro que medeia transitoriedades repetidas/ refém, guardiã de fronteiras/ indecisões, guerras intestinas/ capitã da dor e do tempo/ e da alegria”.
A construção poética de Waldir Pedrosa Amorim padece da fugacidade a qual os críticos mais acadêmicos ainda não se renderam. Mas o poema tem derivações incontáveis, e nenhuma delas menos ou mais ricas e/ou importantes, apenas distintas. Se o repentista Pinto do Monteiro ou o parnasiano Olavo Bilac dialogam em escolas literárias antagônicas, não deixam de servir ao mesmo objetivo. Manuel Bandeira certa vez rendeu-se aos cantadores nordestinos afirmando “eu não são poeta, poetas são estes violeiros, que fazem versos de repente”.
Ou seja, do pantaneiro Manoel de Barros ao pop-moderno Paulo Leminski, todos se aventuram pelo mesmo ofício, no poetar. E Waldir, neste novo livro, cria sua própria identidade em versos como estes: “as tatuagens, não eram cicatrizes/ Eram gravuras, eram caleidoscópios/ As cicatrizes, tatuagens não eram/ Eram marcas, ícones, vestígios de dor” (Indeléveis).
“O que nos apavora, enche de aflição/ é ter certeza/ da colisão das estrelas”. Nestes versos de Efêmero, Demasiadamente Efêmero, espoca uma pletora interior onde o poeta forja poder, e descobre astros em rota de colisão, uma imagem menos assustadora que de encantamento. Porque quando estrelas colidem, ao poeta remetem a luminosidade da criação. “Não creio em poetas felizes”, dizia Poe, e Waldir Pedrosa aproveita o eito para o capítulo Arquitetura da Angústia. Mas a angústia é sutil, suportável e contida: “Minha alma artesã de tristezas e melancolias/ confecciona sazonalmente o cenário debilitado/ onde amargo a consciência do tempo/ em meus lençóis”.
Como podem perceber, o livro O Avesso da Pele, traz um Waldir Pedrosa confessional, o que para alguns defensores do poema como mera construção onde os tijolos são palavras, seria um insulto ou uma retórica volátil. Mas não o é. Waldir confirma-se poeta e poeta com pedigree. A leitura de seus poemas, os menos e os mais claustrofóbicos nos causam uma sensação de apreensão, dor e reflexão. Ou seja, cumpre as etapas possíveis e nem sempre imagináveis.

ricardo_anisio@hotmail.com
(*) Autor dos livros: “Em Cada Canto Um Verso” (1988), “Canção do Abismo” (2003) e “MPB de A a Z” (2005).

Nenhum comentário: