08 dezembro 2005

ENTREVISTA

Waldir deu entrevista a alguns jornalistas, algumas não foram publicadas na íntegra e serão reproduzidas aqui.


ENTREVISTA

Quando e como despertou para a poesia?

Iniciei a escrever alguma coisa, aos cerca de 12 anos de idade. Pelos idos de 1960. Nesta época, já havia tido contato com alguns autores através da leitura e a poesia era algo que me fascinava. Obviamente que coisas simples e constituídas do desejo de escrever coisas sérias, como convém a um adolescente. Recordo-me que possuía um caderno, semelhante aos diários das adolescentes de minha época. Ao invés de um diário, continha o que eu posteriormente, com medo de ser presunçoso, definia como uma escrita vertical. Via de regra eram emoções, primeiras paixões, primeiros encantamentos e também decepções com o mundo socialmente injusto. Porém, também me perseguia a idéia de temas sisudos. Lembro de algumas que falavam do cigarro e das angústias que voavam com a fumaça. O cigarro tinha um simbolismo muito forte de maturidade, precocidade, adultez. Isto era o que um adolescente naquela época desejava aparentar. Decorava poemas e dentre estes, recordo um de Antonio Tomaz que era muito divulgado em antologias didáticas de literatura nacional intitulado O palhaço, que descrevia o contraponto entre o ofício do riso, a expectativa da platéia e a condição pessoal de dor, ante o infortúnio da esposa morta. Na realidade era uma tragédia para descrever a máscara, a dissimulação que todos os seres humanos vivenciam de alguma maneira. Posteriormente tive participação em jograis e esquetes na escola, e lembro que recitávamos poemas de Manoel Bandeira dentre outros. Eu me identificava muito e ainda gosto de Bandeira, me imaginava a escrever um dia como ele. Claro que li Olavo Bilac, Casimiro de Abreu entre outros de quem nunca me afeiçoei muito. Nesta fase também descobri Castro Alves de quem memorizei O caminheiro e Navio negreiro e tinha verdadeira afeição por seu livro: Espumas Flutuantes. Li Jorge de Lima, cuja obra, continuo a redescobrir toda vez que a releio. Uma das minhas alegrias foi ter conhecido pessoalmente o poeta Ascenso Ferreira através de meu pai, que trabalhava no Recife antigo e onde pela primeira vez pude vê-lo com o seu chapelão, quando tomávamos leite maltado numa galeria antiga, (Galeria Lafayete se não me engano) que ainda hoje existe, na Av Rio Branco. Não posso esquecer de Carlos Pena Filho, cuja afeição nasceu do seu poema grafado em destaque no bar Savoy, na avenida Guararapes: Por isso no Bar Savoy / o refrão vai ser assim/ são trinta copos de chope/ são trinta homens sentados/ trezentos desejos presos/ trinta mil sonhos frustados. Mais tarde um pouco, veio a influencia que Vinicius de Morais nos despertava. Era um poeta, compositor, cantor, boêmio dos nossos dias, além do que um diplomata, o que conferia ao poeta a possibilidade de ser blindado do preconceito arraigado de que os poetas eram apenas sonhadores, lumpens, párias, desregrados. Outro lado que fascinava em Vinícius era ter escrito muito sobre a figura feminina, o amor, ter dado uma definição dialética sobre a finitude do amor e da relação amorosa e, também de haver escrito algo com conteúdo social como O operário em construção. Tínhamos um pequeno jornal no Colégio Nóbrega, “Tribuna Estudantil”, confeccionado no mimeógrafo, e de quando em vez eu escrevia mais prosa do que poesia. Lá escrevi um artigo sobre Emmanuel Mounier intitulado “O personalismo”, tema de uma de suas obras e de sua filosofia. Curti o existencialismo, como especulação filosófica que visava analisar a experiência humana em todos os seus aspectos teóricos e práticos, individuais e sociais, instintivos e intencionais, e mais que isto, os irracionais da vida humana. O homem, sua angústia e sua existência me foram temas muito importantes e que ainda hoje o são. Estes foram passos anteriores ao descortinamento de Marx, Engels e outros. Com o passar do tempo eu até me espantei um pouco com o que escrevíamos e abordávamos àquela época de poucos meios de comunicação como a televisão e Internet dos dias atuais. Isto quem sabe contribuísse também para lermos mais e amadurecermos mais o espírito. Eu lia sobre muitas coisas, não só poesia. Era um hábito semanal ir ao cinema de arte nos sábados pela manhã e em seguida percorrer as livrarias da rua da Imperatriz: a Livraria Imperatriz do Jacó e a Editora Nacional. Estas eram as principais. Lá terminávamos as manhãs na conversa com os livreiros, no folhear dos livros e sempre na compra de algum, que o dinheiro permitisse. Isto regado às trocas de idéias que eram verdadeiras curtições sobre a leitura. Bem próximo, na rua da Aurora, tinha a loja de discos da fábrica Rozemblit, com as suas cabines individuais, que arrematava o nosso itinerário cultural. Afora isto, emprestávamos, trocávamos e comentávamos discos e livros com os amigos. Recife tinha muitos cinemas, incluindo os dos bairros, e chegávamos a assistir todos. Íamos a shows musicais, cirandas, brincávamos carnaval de rua, assistíamos peças no Teatro Popular do Nordeste (TPN) e freqüentávamos com igual prazer os concertos da orquestra sinfônica no teatro Santa Isabel, as mostras de fotografia, pintura, escultura ou ao chorinho que Canhoto da Paraíba tocava na praia de Rio Doce. Uma das coisas importantes para mim, foi o fato de ter estudado por algum tempo no seminário, onde o apelo à cultura era fator marcante. Lá pude aprender um pouco de literatura, de latim e ter contato com o grego. Outro aspecto foi o de ter tomado gosto pela filosofia e pelo entendimento do mundo. Cedo aprendi que o ser humano é fascinante, intrigante e ao mesmo tempo infinitamente complexo. Posteriormente, estes aspectos vieram a se sedimentar um pouco mais com a compreensão da história da sociologia e da política. Para nós naquela época o tripé Marx, Darwin e Freud eram pensamentos essenciais. José Saramago, neste seu recente lançamento, o livro As Intermitências da Morte, faz uma citação interessante na abertura: “saberemos cada vez menos o que é um ser humano”. Quando cheguei ao curso de medicina eu não era um ser propenso ao cérebro biológico, bioquímico, microbiológico. Muito menos, afeiçoado a biparti-lo em físico e psíquico, senão ao que se intitula de uma visão holística, ou seja, o homem é um todo indivisível, e não pode ser explicado pelos seus distintos componentes. Estes fatores tiveram e têm uma repercussão direta na minha visão profissional médica e no que eu escrevo. Penso que o que norteia os passos, é a concepção de mundo que vamos esposando. Mesmo, de modo mutante. Sempre de maneira enriquecida pelo ato de conviver. Viver deve incluir conhecer sobre todas as formas; por isso que é desejaria poder sempre viajar muito mundo afora, não para ostentar, não só para divertir-me mais especialmente para conhecer as culturas e civilizações humanas. Diria que tive a sorte, se assim podemos chamar, de encontrar muitas pessoas sensíveis e boas no meu caminho, por outro lado aprendi que necessitamos desenvolver em nós um terreno propício a enxergar na vida, nas pessoas e na natureza as entrelinhas que estas nos põem a reflexionar.
Ao longo do curso médico nunca deixei de ler e de escrever algo fora do campo estrito da medicina. Tínhamos um jornaleco da turma que batizamos de O asterisco, que ajudei a criar e para ele escrevia. É interessante hoje perceber, que passados trinta anos de formados em medicina, vez por outra encontre em colegas de turma, aqueles que não lhe esqueceram pelas posições que adotou, pelas coisas que escreveu ou pelas idéias que defendeu. A escola médica é muito árida e não contempla com uma formação humanística aqueles que lá aprendem a lidar com as dores, o sofrer e a limitação máxima do ser humano que é o corpo que padece e que sucumbirá um dia.
Devo dizer também que o complexo diagnóstico e terapêutico com que nos enfronhamos no percurso do aprender médico, tende a nos mitificar como semideuses. Terminamos por apreciar estas relações desafiantes, que mais e mais nos distanciam da natureza genuína de cuidadores do equipamento total, que compreende: corpo, alma e as relações. Isto posto, nos colocaria melhor aparelhados ao cuidado dos outros.

Os extremos entre lidar com vida e doenças e com versos?

Sem tentar auto rotular-me, acho que tenho uma natureza especulativa, perfeccionista e também melancólica. Acresceria a tudo isto, um lado contemplativo e meditativo que me ajuda a viver e a escrever versos. Gosto muito de escutar. Navego razoavelmente na vida me impondo um respeito ao científico e metodológico, tanto diante do fazer técnico como do viver. Acho que o método científico pode nos ajudar a compreender e apreender tanto o saber técnico quanto o vislumbre da vida. Claro que isto não ocorre de um modo apenas consciente, nem rígido. Porém, interfere positivamente na nossa responsabilidade ética, e sobre a responsabilidade dos nossos atos. Lidar com a vida dos outros impõe uma atitude de receptividade muito grande, um despojamento de preconceitos, um recolocar-se freqüente na perspectiva do outro. O consultório clínico oferece múltiplas modalidades de promoção da vida. Por outro lado, exige competência, atualização constante e sensibilidade. Isto demanda um esforço pessoal e físico. Por sua vez, o médico é atávicamente ligado ao fazer individual. Isto nos retira a visão circunstancial de nós mesmos. Não é em vão que reagimos de modo mais atrasado às mudanças sociais e às relações profissionais e sociais. É mais fácil encarar o mundo como necessitado do nosso paternalismo e do nosso clientelismo. E toda ação clientelista ou paternalista padece do mal do individualismo. Incluo este aspecto, pois na minha concepção, corrobora com os demais, agudizando as dificuldades para progredirmos e mais eficazmente desempenharmos a complexa função de zelar pela saúde, coletiva e individualmente. Sintetizando, acho que para quem possui algum vislumbre, sensibilidade e dedicação, especialmente à clínica, o ser médico impõe certos acréscimos de sofrimento superiores a algumas profissões. No limite disto insiro a poesia na sua acepção grega, como a ação de fazer algo. Algumas vezes creio que a medicina me rouba e me usurpa a poesia, noutras reconheço que esta me enriquece de vivências humanas e sociais que não possuiria caso não fosse médico. Uma coisa eu tenho como certa: devo mais à medicina e ao convívio com os seres humanos como médico, do que estes me devem. Neste último livro fiz questão de dedicá-lo também aos meus clientes, de modo humilde e reconhecido, por serem razão do meu ofício e de grande parte do aprendizado da vida.

As coincidências com Augusto dos Anjos ?

Veja bem, eu senti-me bastante lisonjeado em você haver identificado lembranças de Augusto dos Anjos em algum dos meus versos. Pessoalmente nunca havia pensado nisto, nem tido esta pretensão. Não sou crítico, apenas exponho-me como um poeta. Todos os poetas devem ter experimentado em algum momento a angústia existencial como nascedouro de seus versos. O poeta não é um filósofo na acepção estrita do seu significado, todavia a poesia sempre será um ato filosófico, posto que consegue projetar a razão da sensibilidade e da emoção em palavras. Por isto que se afirma que os poetas como os loucos sabem ver na escuridão. A poesia não possui um objeto, ela pode expressar todos os objetos ou objeto algum, pode apenas provocar emoção, comoção ou existência estética. A poesia é arte, a filosofia é ciência. A filosofia é resposta às perguntas, a poesia é indagação medonha. A poesia é angústia existencial repisada há séculos de história da humanidade e nunca exaurida. Neste contexto, este meu último livro, O Avesso da Pele, enfeixa, entre outros, dois temas o tempo, representado pelo poema o avesso do tempo e sentimento, no poema título o avesso da pele. Estes temas até então têm estado presentes nos três livros que publiquei : Cantos da Vida de Amar, Amor que sai do Casulo e este agora.
A “palavra encantada com a literatura medicinal em simbiose”, como você o põe tão belamente e magnânimamente em seu prefácio ao meu livro, sem dúvida denuncia o meu eu médico, no uso de uma simbologia que me encantou. Poder discorrer sobre a pele, a superfície, o transitório e seu avesso: o sentimento, o âmago, a poesia.
A poesia de Augusto dos Anjos contempla de forma peculiar, única, a angústia do eu, da alma como anima, do corpo social e do corpo humano, as angústias na interface aguda do viver. No meu parco entendimento, seu linguajar não só médico como biológico, microbiológico, escatológico, advindo com maestria da vida acadêmica, disseca a alma de um corpo humano ferido e vulnerável, que transcende em poesia de um altíssimo quilate literário. É assim a poesia. Já li e reli Augusto dos Anjos várias vezes e desde muito.
Mas eu gostaria de revelar minha paixão não narcisista, assim considero, pelo ser humano. Dela decorre não uma contemplação ufanista da bondade, mas uma constatação sofrida da sua limitação, da sua perversidade, da sua destrutividade. A história da humanidade nos repete isto a cada pedaço. Bem maior que sua finitude, a arrogância e incompetência do ser humano para conviver, é objeto de angústia.

Quais os autores com quem mais dialoga em termos de influência?

Pergunta difícil de responder. São vários os poetas que leio por prazer e com prazer. Já citei alguns, mas acresceria Ferreira Goullart, Cecília Meireles, T.S.Eliot, W.H.Auden, Garcia Lorca, Victor Jara, Drumond, João Cabral de Melo Neto, Joaquim Cardoso, Augusto dos Anjos, Chico Buarque, Caetano Veloso, Patativa do Assaré, dentre outros. Não consigo estabelecer um vínculo de influência, não por que rejeite a idéia de ser de algum modo influenciado. Se diz que a identidade é a medida do amor, contudo não me sinto maduro para fazer a leitura desta influência.

Como analisa a produção da poesia paraibana?

Considero muito rica a nossa produção literária e artística. Não sou crítico literário, sou poeta e sou leitor. Tenho lido muita coisa boa e tido contato com poetas anônimos que me deslumbram. Na nossa Paraíba se tem publicado razoavelmente bem. Até o que meramente serve a intuitos auto-promocionais. Existe uma modalidade na qual a poesia se insere que é através das letras musicais. Temos verdadeiras preciosidades no nosso cancioneiro sob diversos ritmos. Existem letras de rock como de forró que são primorosas. O que nós continuamos precisando é de uma divulgação maior do que fazemos e de que nós próprios, enquanto consumidores de cultura, percamos a atitude do colonizado, que apenas compra e dá valor ao que não é produto seu. É difícil você encontrar uma pessoa que presenteia com um livro ou um disco, de um autor paraibano. Isto é sem dúvida marca de uma certa submissão cultural. A identidade artística senso latu, é algo que nenhum povo pode prescindir. Ainda são poucas as verbas empregadas como incentivo à cultura. E mesmo que estas fossem suficientes, seria necessário existir um espaço de divulgação e de incentivo ao consumo e distribuição da nossa cultura. Não devemos produzir coisas para inglês ver e ficarmos decantando o fato de sermos citados. Necessitamos de um consumo interno e externo, fruto do reconhecimento dos nossos valores. Para isto carecemos de primar pela autenticidade. Gostaria de ver nas ruas e logradouros de nossa cidade, ao invés de nomes de pessoas vivas e às vezes cuja única contribuição social foi haver ocupado um cargo público; que existissem nomes de poetas, artistas, escritores, compositores, fotógrafos, músicos, pintores, artesãos etc. de significado real para nossa cidade, ou até mesmo nomes de obras literárias. Não seria emblemático e significativo?
Aproveitando este assunto, eu diria que a poesia se inclui no seio de uma comunidade humana, como algo que reflete os seus valores, o seu sentimento, o seu filosofar. Eu já afirmei em uma outra entrevista que o poeta não é um filósofo na acepção estrita do seu significado, todavia a poesia sempre será um ato filosófico, posto que consegue projetar a razão da sensibilidade e da emoção em palavras. Por isto que se afirma que os poetas como os loucos sabem ver na escuridão. A poesia não possui um objeto, ela pode expressar todos os objetos ou objeto algum, pode apenas provocar emoção, comoção ou existência estética. A poesia é arte, a filosofia é ciência. A filosofia é resposta às perguntas, a poesia é indagação medonha. A poesia é angústia existencial repisada há séculos de história da humanidade e nunca exaurida. Por isto tem de ser comungada em contrição.



Como se define do ponto de vista estilístico?

Escrevo versos livres. Já escrevi poemas processo em uma certa fase, mas foram poucos. Se me permitir, citarei um poema incluído neste meu último livro. Penso que ele daria conta desta indagação:

COMO SE ESCREVE UM VERSO?
Um verso se escreve
sem se saber
que o verso escorre
como o leite
o vinho
o mel
o fel
a paixão
a tristeza
a dor.

Sem se saber
que é orgânico,
antes de ser mineral.

Sem se dar conta
de ser alfaiate
sendo tecelão.

Waldir Pedrosa Amorim

04 dezembro 2005

Prefácio do Jornalista, Poeta e Escritor Ricardo Anísio

À Flor da Poesia, e da Pele

Ricardo Anísio
Jornalista, Poeta e Escritor (*)


O poeta irlandês Dylan Thomas, que era um crítico ferino, ousava dizer que a maior das artes é a poesia. Partindo dessa alardeada supremacia, os garimpeiros de versos seriam figuras bafejadas pelo divino. Talvez nem sejam, posto que a efemeridade da criação e a flamejante luz do deslumbramento, não conformam o sacerdócio poético. “O Avesso da Pele” é um livro tênue e denso ao mesmo tempo, tem sopros arejados de quase-prosa e profundidade de imagens poéticas capazes de bastar ao leitor mais arguto.
Em seus Sete capítulos, ou variações de sinfonias em torno do mundo empírico, há uma conjunção de sentimentos e poucos signos metafóricos. Os poemas de Waldir Pedrosa Amorim parecem torpedos, ora líricos ora bélicos. E o belicoso aqui não se refere atrofiadamente ao vulgar da violência, mas às batalhas da alma contra injustiças afiveladas contra o cotidiano.
Do primeiro Tomo que empresta título ao livro descortina-se uma sincronia entre o médico-poeta Waldir Pedrosa e o poeta-acadêmico de medicina Augusto dos Anjos; embora em estilos díspares. O poema “Pele” tomado como exemplo grifa a simbiose da palavra encantada com a literatura medicinal. “Interface com o mundo/ invólucro que medeia transitoriedades repetidas/ refém, guardiã de fronteiras/ indecisões, guerras intestinas/ capitã da dor e do tempo/ e da alegria”.
A construção poética de Waldir Pedrosa Amorim padece da fugacidade a qual os críticos mais acadêmicos ainda não se renderam. Mas o poema tem derivações incontáveis, e nenhuma delas menos ou mais ricas e/ou importantes, apenas distintas. Se o repentista Pinto do Monteiro ou o parnasiano Olavo Bilac dialogam em escolas literárias antagônicas, não deixam de servir ao mesmo objetivo. Manuel Bandeira certa vez rendeu-se aos cantadores nordestinos afirmando “eu não são poeta, poetas são estes violeiros, que fazem versos de repente”.
Ou seja, do pantaneiro Manoel de Barros ao pop-moderno Paulo Leminski, todos se aventuram pelo mesmo ofício, no poetar. E Waldir, neste novo livro, cria sua própria identidade em versos como estes: “as tatuagens, não eram cicatrizes/ Eram gravuras, eram caleidoscópios/ As cicatrizes, tatuagens não eram/ Eram marcas, ícones, vestígios de dor” (Indeléveis).
“O que nos apavora, enche de aflição/ é ter certeza/ da colisão das estrelas”. Nestes versos de Efêmero, Demasiadamente Efêmero, espoca uma pletora interior onde o poeta forja poder, e descobre astros em rota de colisão, uma imagem menos assustadora que de encantamento. Porque quando estrelas colidem, ao poeta remetem a luminosidade da criação. “Não creio em poetas felizes”, dizia Poe, e Waldir Pedrosa aproveita o eito para o capítulo Arquitetura da Angústia. Mas a angústia é sutil, suportável e contida: “Minha alma artesã de tristezas e melancolias/ confecciona sazonalmente o cenário debilitado/ onde amargo a consciência do tempo/ em meus lençóis”.
Como podem perceber, o livro O Avesso da Pele, traz um Waldir Pedrosa confessional, o que para alguns defensores do poema como mera construção onde os tijolos são palavras, seria um insulto ou uma retórica volátil. Mas não o é. Waldir confirma-se poeta e poeta com pedigree. A leitura de seus poemas, os menos e os mais claustrofóbicos nos causam uma sensação de apreensão, dor e reflexão. Ou seja, cumpre as etapas possíveis e nem sempre imagináveis.

ricardo_anisio@hotmail.com
(*) Autor dos livros: “Em Cada Canto Um Verso” (1988), “Canção do Abismo” (2003) e “MPB de A a Z” (2005).

Fala e Agradecimentos do Autor por ocasião do lançamento, para um público de cerca de 200 pessoas no Parahyba Café.

ALGUMAS PALAVRAS


Devo-lhes algumas palavras
e a mim reflexões.

Ainda menino, encontrei-me com palavras.
Palavras ditas, escritas, solfejadas
palavras de adormecer e de viajar
palavras descomprometidas
de ser sonho ou realidade,
palavras que a ânsia cessava.
Balbucios singelos de minha mãe, e minha avó.
Que repisavam as estórias, os contos da carochinha,
e as cantigas de ninar.

Cedo encontrei-me com outras,
entintadas em papel
tipografando os meus anos
em molduras.

Aneladas me chegaram,
e se apoderaram de mim.
e a existência delas
tornaram-nas fato central em minha vida.
como o afirmava Jorge Luiz Borges.

Sua alquimia:
a sazonalidade
a tolerância com o tempo
estarem ao meu lado, disponíveis
em tudo quanto eu fazia..

As palavras. (descobri).
São códigos d’alma
que não se apartam da vida.

A poesia é desassossego!

Antes dela,
a sensibilidade
congênita e a adquirida
dá escuta ao caminho,
e aos caminheiros
que vêm e vão.

Anteriores a ela,
A percepção
Dá guarida ao cotidiano
com suas repetições
e seus revezes.
Fornecendo lenha e cera
à angústia e à alegria.

Sua precursora,
a alma acumpliciada de si
dolorosamente,
despedaça grilhões individuais.

Transmuta-a
na outra face,
que é pedaço,
e é metade,
sendo inteiro.

Vê-la pública
em papel livro,
é comparti-la
sem resgatar-lhe a metade
que pertence a quem a sentirá.
Modo vário,
peculiar e diverso.

Sem objeto único,
a poesia
é todos os objetos
ou objeto algum.

Sem materialidade
é emoção é comoção.

Sem ser ciência
é ato filosófico.


Sem ser história,
é linguagem ancestral
repisada pelos homens.

É escultura
sem cinzel.
.
Sem pincel
é estética.

Sem lentes
é fotografia

Sem ser resposta
é indagação medonha.

Sem ser pão, leite ou mel
é necessária
e é pobre a vida
em sua ausência.

Aqui estou, pela magnanimidade de vocês de receberem o que escrevo.
Aqui está um poeta convidando amigos para o convívio com suas palavras. Não deixará de estar aqui o médico, o cuidador que convive com as dores e com a promoção da saúde. Mas se me permitirem, peço que aceitem hoje este pedaço que não se amputa e que ao contrário se revigora no outro pedaço.
Neste limite insiro a poesia na sua acepção grega, como a ação de fazer algo.
Algumas vezes creio que a medicina me rouba e me usurpa a poesia, noutras reconheço que esta me enriquece de vivências humanas e sociais que não possuiria caso não fosse médico. Uma coisa eu tenho como certa: devo mais à medicina e ao convívio com os seres humanos como médico, do que estes me devem.
Assim, fiz questão de dedicar este livro também aos meus clientes, de modo humilde e reconhecido, por serem razão do meu ofício e de grande parte do aprendizado da vida. Ele é O Avesso da Pele que espero interaja, pergunte, arrepie. Nele os meus arrepios interiores, feitos palavra.
Gostaria de revelar minha paixão e respeito à natureza, à terra, ao rincão, às cidades, aos seres humanos.
Ela decorre não de uma contemplação ufanista da bondade, mas de uma constatação sofrida da limitação, da perversidade, da destrutividade humanas. A história da humanidade nos repete isto a cada pedaço.
Maior que a finitude, a ganância, a arrogância e incompetência do ser humano para conviver, é objeto de angústia.
É também objeto da poesia que não é extemporânea.
Este também é o avesso da humanidade que necessitamos nos inteirar para aprimorá-la. Repito quando posso, uma frase atribuída ao budismo: nós precisamos ser a transformação que queremos no mundo.

Eu terminarei estas palavras, com agradecimentos a vocês e também a algumas pessoas significativas em minha vida.
Minha companheira Maria de Fátima, que um amigo que aqui se encontra apelidou-a de primeira rima. Ela é a minha casa, a minha morada, o meu porto, e aqui estou me apossando das palavras do escritor e poeta português que admiro, José Saramago, no oferecimento de seu último livro à sua companheira Pilar. Não encontrei depois que o li, nada que pudesse superá-lo para expressar a sua importância na minha vida.
Tenho três filhos: Pedro, Paulo e João cuja amizade, a cumplicidade e a troca de experiências me impulsionam a vida.
Minha irmã, Nelizinha, que aqui se encontra, e que percorreu mais de perto comigo a infância e por quem nutro um grande carinho.
Aos amigos que me ajudam a reproduzir o dia a dia do trabalho, Maria José, Tatiana, Fabiany, Débora, Sônia, Érica, Gracinha e Nildo.
Aos companheiros do Grupo de Apoio a Portadores de Hepatite e Transplantados de Fígado - da ONG Confiantes no Futuro.
A Editora Manufatura na pessoa de Geraldo Maciel (Barreto), que fez um trabalho pontual e de boa qualidade.
Ao amigo, músico e compositor Arimatéia Piauí que nos brinda nesta noite com a alegria da música e voz do seu conjunto instrumental e pelo belo repertório que escolheu para tornar mais alegre esta noite. Permitam-me divulgá-lo pelo seu telefone, pois muitos já o solicitaram que o fizesse.
Contatos: 83- 93163310.
Ao Parahyba Café, nas pessoas de Marconi e Bob e à Usina Cultural Saelpa na pessoa de Cleide. Espaços que engrandecem a cultura paraibana.
Ao poeta, escritor e jornalista Ricardo Anísio, que escreveu as orelhas do meu livro anterior (Amor que Sai do Casulo) e que brindou este livro com um esmerado prefácio.
Posso dizer que conheci Ricardo Anísio pelo que ele escreve e do mesmo modo, este pode conhecer-me pelo que escrevi e que prontamente não se negou a avaliar. Fui afoito, em sendo um poeta bissexto e aprendiz de submeter minhas palavras ao seu crivo rigoroso, honesto e sincero que a Paraíba e o Brasil conhecem pela competência.
Por fim permitam-me relatar brevemente como cheguei a cometer a veleidade de publicar em 2001 o meu primeiro livro: Cantos da Vida de Amar Poemas e Solilóquios.
Submeti-o ao amigo, escritor e poeta, Ronaldo Monte e este, com paciência e dedicação criticou-o, sugeriu, baniu alguns e discutiu cada poema, dos inúmeros que eu havia recolhido do meu baú desde 1964. Ronaldo prefaciou o meu primeiro livro e não só isto, como acompanhou a sua editoração pela Editora Universitária.
Todos o conhecem pela sua sinceridade, sensibilidade e o seu desprendimento, que se tem tornado um referencial no incentivo à nossa produção literária. Os dois últimos livros que publiquei passaram por este mesmo processo, junto com Ronaldo, com quem eu divido a existência destas três ousadias que cometi. O que não significa que este assine embaixo delas, sua importância como escritor é do tamanho da sua alma, que é enorme e não me arvoraria a equiparar-me consigo.
Ronaldo é um cronista de mão cheia, tem vários livros publicados entre nós e estará lançando no ano vindouro o seu primeiro romance em lançamento nacional, pela editora Objetiva como parte da série Fora dos Eixos.
Especialmente a ele o meu muito obrigado e a Gloria, psicóloga, psicoterapêuta, uma mente aberta e sensível, sua mulher, sua cúmplice, leitora em primeira mão e incentivadora de sua carreira de escritor. O carinho deles transborda e nos contamina positivamente.
Este livro é dedicado a meu pai, Wandelcy Dias de Amorim que aqui não pode estar e cujo pequeno verso nele contido passo a ler:

Dedicatória

Recife,
rio Beberibe de águas claras,
vegetação das margens
qual casa mata.
meu pai ensina-me a nadar e a
pescar piabas.

Meu pai calado
sobre o leito do nosso rio,
completa hoje 88 anos.
Aprecio mares.

Dedico-lhe este livro,
afluente de sua nascente
caudalosa
1/08/05

A todos o meu muito obrigado.

Waldir

A FALA DA MULHER FATIMA DUQUES DE AMORIM

Quero agradecer a todos os que compareceram para prestigiar o autor, registrar as ausências justificadas de alguns amigos, além de lamentar a ausência de Pedro e Paulo, filhos que estão fora. Comemoro, no entanto a presença de João, que no lançamento anterior também estava fora. E dizer algumas palavras aos presentes e a Waldir.
Em João Pessoa, todos conheciam Waldir médico e só conheceram o Waldir poeta em 2001, a partir da publicação de “ Cantos da vida de amar – poemas e solilóquios”, primeira experiência de compartilhamento de sua escrita com um público mais amplo. Satisfeito de expressar-se, seguiu com “Amor que sai do casulo”, em 2003.
Hoje, em “O Avesso da pele”, o poeta desnuda-se definitivamente e se revela, além de maduro, cada vez mais conciso; escreve poemas curtos, alguns muito suaves, outros extremamente doridos, esses em sua maioria. O avesso é o lado de dentro à mostra, a parte de trás, o reverso, e assim se mostra o Waldir de hoje.
Na sua escrita, já se permite que caiam todas as máscaras sociais, e é capaz de escrever o poema “Palavra triste” Pranto elegíaco / do desencanto. Choro contrito, / do descontente. / Metáfora da lágrima. Permite-se escrever o poema “Melancolia” Melancólico. / Assim me quis a natureza. / Deu-me vislumbre e sensibilidade.
Vislumbre que lhe permitiu usar a expressão literária para partilhar sua sensibilidade com os outros.
Sensibilidade esta que lhe permite ter o grande dom da compaixão na sua profissão de médico, que exerce com tanto ardor. Permite-lhe também ter o dom da escrita que vem se aprimorando, perdendo a inibição e escancarando o avesso da pele. Exponha-se pois cada vez mais, querido Waldir, para que possamos todos nós, eu, seus filhos, seus amigos e parentes, seus pares e seus leitores desconhecidos, desfrutar dessa bela veia com que a natureza lhe agraciou.

A crônica de Ronaldo Monte de Almeida

O avesso da pele
O médico Waldir Pedrosa Amorim é íntimo do que se passa no avesso da pele e além dela. É seu ofício quotidiano invadir o corpo alheio em busca de males invisíveis ao olho nu.
O poeta Waldir Pedrosa Amorim é íntimo do que se passa no avesso das palavras. É seu ofício ir além da superfície do texto em busca de sentidos invisíveis à sensibilidade comum.
Íntimo do médico e do poeta, fujo o quanto posso do primeiro, pois já não me cabe na carcaça o mais mínimo desvio patológico. É sabido que não se sai de um consultório sem uma doença nova. Já do poeta, procuro estar sempre por perto. Pois dele sempre saio com as emoções renovadas pela surpresa que os seus poemas me mostram ali, ao meu lado, dentro de mim.
O avesso da pele é o terceiro livro de poemas de Waldir. Como os dois primeiros, seus originais também passaram pelas minhas mãos. Tenho este privilégio e me orgulho dele. Pois não é todo dia que se é convidado a participar de uma edição, desde a escolha dos poemas, sua distribuição em tópicos, sua ordem de apresentação.
Claro que Waldir poderia fazer isto sozinho. Ou pedir a Barreto, da Editora Manufatura, que também é poeta e sabe fazer isto melhor do que eu. É só ver a qualidade da edição. É por bondade que ele me quer por perto. Ou por maldade. Para zombar de mim que passo anos sem publicar poemas, por falta de poemas a publicar.
Na falta de meus próprios poemas, faço meus os poemas de O avesso da pele. E o próprio título já me dói, já me propõe a carne viva, o nervo exposto. Não a carne nem o nervo que Waldir vasculha em sua clínica. Mas a metáfora da carne e do nervo que Waldir disseca em seus poemas.

Ronaldo Monte – Poeta e psicanalista.

A noite do Lançamento


A advogado Emmanuel Medeiros e Mercia Japiassu, sua sogra, juntamente com o empresário Ednalvo Diniz, prestigiaram a noite de autografos do amigo.

O amigo Domingos Maciel, Grupo Confiantes no Futuro, e sua família.

A esposa Fátima, conhecedora da poesia de Waldir bem antes destas se tornarem públicas, trouxe ao seu modo, uma avaliação crítica ao conjunto de sua obra e fez agradecimentos aos presentes.

Waldir ao final das falas do poeta e psicanalista Ronaldo Monte, da esposa médica Maria de Fátima, e da companheira Clarice Pires falou palavras de agradecimento.

A amiga, leitora do seus livros e poetisa nata Maria das Dores veio abrilhantar a noite do do médico e poeta.

Geraldo Maciel, Fatima sua esposa e Waldir.

A amiga e companheira da ONG Confiantes no Futuro - de Apoio a portadores de hepatites e transplantados de fígado trouxe a palavra do grupo.

A iluminação primorosa da Usina Cultural da Saelpa em um ambiente agradável e acolhedor.

Um significativo número de presentes ao lançamento, uma noite alegre de primavera, um excelente conjunto musical coordenado pelo amigo Arimatéia Piaui, o carinho dos presentes que passaram a ler poemas escolhidos por eles ao microfone.

Amigos e leitores presentes na noite do lançamento no Paraiba Café - Lado Externo da Usina Cultural Saelpa. Um espaço consagrado pela literatura e artes paraibanas.

O autor autografando sua última obra.

Waldir Pedrosa e Geraldo Maciel (Barreto), da Editora Manufatura.

A anestesista Cristina Medeiros Lacerda, sua filha Catarina, o cirurgião José Carlos e eposa, abrilhantaram a noite do amigo.

Wellington e esposa, o amigo Diógenes, representando a Marina Sevnáutica (de onde o poeta gosta de navegar pelo Rio Soé) e o poeta Ronaldo Monte que tradicionalmente tem conduzido a abertura dos lançamentos dos livros de Waldir.

Mioco, Helena Medrado, curadora da Cobrás e Angela.