26 dezembro 2007

Aos Cem Anos de Oscar Niemeyer


Oscar Niemeyer

Prossegue Oscar
não dá trela ao tempo metafísico.
Rabisca
o tempo dialético.

Anda Oscar
pés nas veredas
neurônios orbitando no universo
poemas caçados pela vida.

Menino grafiteiro,
soerguendo versos
com o carvão das cidades,
na lousa das calçadas.

Continua, menino Oscar,
aliviando o peso do concreto
quebrantando a dureza
do caos de aço.

Permanece, sábio companheiro
extasiando as gentes
com a alquimia intrépida
da coerência incitada pela esperança.

Ainda tempo bastante Oscar,
menino visagista.
Mulheres, as cidades são devotas
da paixão de um gênio.

Waldir Pedrosa Amorim
João Pessoa 15 de dezembro de 2007, Cem anos do arquiteto Oscar Niemayer

Foto: A intimidade do arquiteto ©Anna Kahn

20 dezembro 2007

Mensagem Natalina


MESMO QUE NÃO SEJA NATAL, NEM ANO NOVO SEJA...

Não pesarei o tempo,
nem seccionarei o mundo
em cortes sagitais.

Trocarei as compressas das feridas,
pelo algodão doce.
A maçã das dietas,
pela dos amores.

(-Waldir, trecho do poema – Pelas calçadas –)

Desejo a todos os meus amigos, aos conhecidos, aos que não conheço tanto, aos que apenas nos cruzamos, aos que somos contemporâneos, aos que nos afagamos com o olhar, com as palavras, com o aceno, o aperto de mãos, o beijo ou o abraço, com a lembrança; ou simplesmente aos que marchamos no desmesurado caminhar humano: a alegria das festas, o vigor para o ano de 2008, e desejo, muita poesia para o mundo!

O carinho de

Waldir Pedrosa Amorim

Dezembro de 2007.

Foto: By Waldir

24 novembro 2007

Mais um livro...

















mais um livro
lhes proponho...
pretensão minha
ser escutado
em dísticos mudos
anciãos
que dormem em folhas
submersas
já ausentes
da imaginação
tida outrora
como posse minha
desde então
de quem o lê
e
se
o lê.

sábado, 24 de novembro de 2007

O AVESSO DA PELE - POESIA: Saudade

O AVESSO DA PELE - POESIA: Saudade

Saudade


Um bem desejável
não é saudade.
Saudade é
um bem já tido,
inda que fugidio,
mesmo que permanente,
sentido como pedaço
arrancado do corpo
da gente.



Photo Title: SAUDADE
Details: 360 x 500 pixels - 264.6kB - JPG
Foto de
zakketty3000 no Flickr

Acesso em 01/04/08 21:31 fonte: http://migre.me/9AOp9

07 outubro 2007

Água do Tempo / L’eau du temps


















Água do Tempo

O tempo
é rio
é água.
O que me faz breve.

Assim, oceano.
Assim, correnteza.
O tempo me batiza,
engolfa
a lanugem
de minh’alma pubescente,
amalgama-me em um vaso usado, fendido,
aberto em ferida.

Assim, senescente.
Assim, velho.
Batiza-me de sábio,
por espernear contido.
Não dá conta,
de que tomado por resiliente,
sou areia lavada de rios,
conchas ocas de oceanos.

L’eau du temps

Le temps
est rivière
est l’eau.
Ce qui me rend fugace.

Tel l’océan
Tel le courant.
Le temps me baptise,
il prend
les premières pilosités de mon âme en puberté,
m’amalgame dans un vase usé, fendu, ouvert comme une blessure.

Ainsi, dans la senescence.
Tel un vieux.
Il me nomme sage
à force de gigoter contenu.
Il ne se rend pas compte
que dû à la résilience
je suis le sable lavé de rivières,
coquilles vides d’océans.


Waldir, outubro de 2007
Waldir, octobre 2007
Fotos by Waldir

01 julho 2007

Papagaios (pipas, corujas)


O menino
brincava com o papagaio...

O vento
brincava com o papagaio...

Soprava
o roncador,
a linha de dois zeros,
o cerol,
o cabresto,
as mensagens em tiras de papel.

E o vento, soprava
sonhos,
devaneios,
cumplicidades.

Aprendera com o pai
a confeccionar e apreciar papagaios de papel
e por contingência a contemplar o vasto céu.

E o vento exorcizava...
as penas,
os pecados,
as mágoas,
as frustrações dos dias de menino.

E o vento, soprava-lhe...
a tez,
os cabelos,
o viço generoso da idade,
e as fantasias.

Simultaneamente enxotava
os fantasmas
os terrores
as assombrações...
que sumiam...
num rabo de papagaio ou de pipa
sustentados no vento
e no tênue barbante que o ancorava à terra!

E...
o menino
seguiu lembrando
o papagaio que voava
o vento que soprava
o roncador,
os sonhos,
as mágoas,
o doce aprendizado de deleites e desafios...
e a proteção daquele velho amigo
que lhe ensinara a bater asas
e a ganhar o céu
tal e qual os papagaios de papel
e seus referenciais .

E...
bateu-lhe a saudade,
a nostalgia,
e a calma seguida da paz
e foi dormir adulto,
seus sonhos de criança
achando que na vida tudo se relacionava.

Lições de dialética









(a Pedro, Paulo e João)

Meu filho,
embora não pareça,
tudo se move.

As pequeninas partículas,
desta aparente inerte forma.
A força de coesão dos átomos
desta mesa de trabalho
e mesmo desta pedra bruta, dita:
matéria inanimada.

Tudo oscila entre dois pólos
contraditórios,
e o sim que une
e o não que afasta;
aparentemente distintos,
são o mesmo sim e não.
Os contrários se opõem
é bem verdade,
mas, mesmo nesta
maravilhosa desigualdade,
há uma imensa unidade
entre os contrários.
Tudo se transforma
e tanto e tanto
que mesmo o ontem
já tendo sido o hoje de outrora,
é negado
pelo hoje de agora.
Nada é fixo,
nada é imutável
e mudar é uma peculiaridade
da matéria.
Importa conhecermos
como muda!

Tudo enfim,
rege-se pelas leis
desse perene movimento.
Nada é estático
nada é eterno
nada é absolutamente infinito.

As verdades,
são as leis que regem o mundo,
em cada particularidade
e a verdade única
nada mais é
que o leque de verdades relativas.

Na natureza como na vida,
tal é o movimento observado.
A sociedade e a história dos homens,
assim se movem,
desde você,
até seus antepassados!

Urge
não dissociar,
a vida da natureza
e a vida e a natureza da história.

Urge
uma sintonia com o universo
no caminho de aprimorá-lo.

Cantiga de esperar o filho que vai nascer.



(para Joãozinho, quando ainda não havia nascido)

Te quero
meu pequenino,
Te quero,
amiguinho de cinco meses de útero.

Te quero
e te quero muito
e assim também o quer,
esta tua familhinha.

Te queremos
companheirinho
e também te quer o mundo,
que difere um pouco
deste teu mundo de "barriguinha".

Nele não acharás gratuita,
esta placenta que te nutre...
mas, na medida do possível ,
e até te acostumares,
seremos nele, nós,
tua placentazinha.
Vem com força
e suga
e mama
e reclama
e te defende
e ama
e sobretudo ama
ama livremente!

Cava com garra a tua independência!
anda com teus pés,
tira tuas conclusões
derrota tuas dúvidas
e as recria!

Aprende, aprende muito.
com o mundo
com os outros
contigo mesmo.

Exerce o feitiço
de aprender com regras tuas,
pela observação das coisas
que não te ensinarem.

Se um dia
encontrares-te triste,
vê, se não é também dos outros,
a tristeza que há em ti.

Caso o seja,
universaliza-a,
junta-te aos outros
e vence-a unido.
Faze o mesmo,
se te sentires oprimido.

Por outro lado,
luta para que a tua alegria,
seja a de muitos...
e desconfia sempre,
se no teu universo,
forem poucos,
o número dos contentes.

Luta contra qualquer tipo de grilhão,
e para que o último cordão,
este, que te desligaste ao nascer,
tenha sido o biológico cordão,
do teu umbigo!

Nunca te desesperes,
"há sempre uma luz
ao fim de cada túnel"
Busca a verdade
por amarga que pareça,
e te repito,
ama
antes de tudo, ama...
não só aos outros,
também a ti,
com amor,que te geramos um dia!

Córregos da infância

Barquinhos de papel
jogados
na poça de chuva
na chuva de lama
dos córregos
da infância!
Que caminharam,
pelotões
teleguiados
enquanto a chuva existia.
Correram
cedo,
sem medo.
Molharam
rápido,
e foi cedo.
Rasgaram
cedo,
e foi logo.
Sonharam
tanto,
e foi tudo.
Cruzaram
rios
e foi medo.
e carregaram em viagem efêmera
a fantasia
jogada
na poça de lama
dos córregos
da infância.

Quimera


Um dia,
hei de sonhar um sonho
infindo
e desacostumado de ter tempo
e de ter pressa.

Um dia,
sonharei um sonho louco,
sem metáforas,
curtido...
desacostumado
de ter senso
de ter nexo...
só desejo
limpo ou sujo
radiografia de mim.

Maturidade



A maturidade
futuro do pretérito de quem vive.

Decantou-me o sentimento,
assaltou-me de perplexidade,
remodelou–me o assombro,
apaziguou-me a ambivalência existencial.

Forjou-me dúvidas,
furtou a puerilidade da alegria plena.
arrancou a irrestrita certeza e
abalou-me a fé .

Inesperada adolescência,
ebulição climatérica na alma dos meus conceitos,
propiciou:
medo,
incontida pressa,
paradoxal dimensão da confiança,
e de referenciais,
cultos, ígneos,
imanentes...
adquiridos:
na palmilha do tempo,
no incerto percurso vital,
na poeira das vias.

Caminho da caducidade,
fatal estagnação,
limite de idealizações exigentes.
Deságüe da finitude,
cantada no versejar da infância.

Adicionou temperos novos
a indefectíveis sentimentos:
uma bondade
antes que ingênua,
ciosa de que o bom e o belo,
são cadinhos
de profundos e eternos movimentos!

Uma tolerância ,
com o ritmo dialético do tempo!

Uma fé ,
que saboreia o credo!

Uma esperança,
que não carece de prazos!

Ampulheta

Tempo
ampulheta de grãos medonhos
areia, terra, caminhada
terra e areias não mais caminhadas outra vez...
Tempo...
vela ardente,
cera, queimante chama,
sem retardo e sem esperas
derretendo futuros...
Tempo, rio solto
correnteza
doce água
metamorfoseando as margens de terra...
ocre terra...
perdido porto...
ancoradouro sem memórias...
em oceanos sem mente.
Tempo...
tão imenso que nos humilha
tão voraz que nos extingue...
tão soberano que nos esquece.

Loja de brinquedos


Tempo,
loja de brinquedos
fechada para o almoço.
Tempo,
vitrine de brinquedos
proibidos de tocar.
Tempo,
tic-tac,
na hora de brincar.

ORGULHO


Bom ou mau?
Nem mau, nem bom!

Humano o bastante
para permanecer aceso,
sem se dar conta.

Empana a clareza
das coisas simples e diretas.

Subverte a aferição da nossa balança para mais...
Remédio,
quando deprimidos.
Veneno,
quando prepotentes.

Exercício,
quando sensatos.

AMOR E CIÚME


O amor,
feixe de luz refratado sobre prisma,
é um arco-íris e comporta:
dispersão,
espectro,
nuances,
tonalidades,
matizes,
peculiaridades,
decomposição,
iluminação,
sombra.

O ciúme,
feixe de luz refratado sobre lente convergente,
é um foco:
incide,
localiza,
investiga,
concentra,
ofusca,
queima,
seca,
destaca,
expõe,
realça,
delimita.

NAVEGANTES


Feita de cuidados e descuidos,
a vida passeia,
sem referências,
pelas marés,
noites de lua.
Foto: Matisse - Dance I. Óleo sobre tela

HUMILDADE E SEU ANTÔNIMO


A humildade,
não será o orgulho reducionista,
do santo, do mártir e do herói?
Foto: Marc Chagall - Solitude - Óleo sobre tela.

CERTAMENTE...


Certamente,
a perseverança
é quem permite à borboleta
conhecer a flor,
ao colibri
provar o néctar,
ao ser humano
partilhar
a alegria e a tristeza
com intimidade.
Foto: Gauguin - Fields near Le Pouldu- Óleo sobre tela

ILHAS




Puras e diáfanas ilhas
com sossego e esperança
mentistes pra mim
que virias
encontrar-me
ao cabo
de minha pretendida construção
ao fim
do meu tormentoso investimento
comportado
estóico
esquecido de mim
para tua espera.
Ilhas,
canções que acalentei
menino
refrões que balbuciei
ingênuo
jargões decorados
que trabalhei comigo
para esta doce espera tua.
Ilhas
de prazer singelo
de lazer perpétuo
como um Éden imaginado.
Ilhas,
estórias e histórias
e contos e contas
que debulhei contrito
que soletrei aflito
na expectativa
de tua chegada triunfal.
Ilhas,
patamares e degraus
e escadas e escaladas
que percorri
sem sequer olhar pra trás.
Ilhas,
doces filhas triunfantes
rezei
e jazi pensante
e labutei e percorri arfante
e me consumi com toda a onipotência
e investi
e andei
e percorri qualquer percurso,
a todo preço,
a qualquer preço
e a toda hora
e a toda noite de insônia,
alimentava-me a aurora
de tê-las
filhas
da minha loucura
da minha insônia
da minha fiel utopia.
Ilhas,
tê-las em verso,
já quase é vê-las.
Em verso
mais que possuí-las
é ter o poder de inventá-las;
e esperar,
já sabe a merecê-las.
Se não chegares,
ancorarei meu barco
no meio deste humano oceano
travarei meus olhos e sentidos
Ilhar-me-ei sob o céu dos vagabundos.

INSPIRAÇÃO


Eis que vens
Povoas a alma
Delírio onipotente

Notas que ferem
Transpassam
Sangrar indolor
Sinfonia inacabada
Musa ardente
Composição
Música
Contínua
Continuai, continuai
Indefinidamente.

RECICLAGEM


Sonhos
Presságios
Quimeras
Recriam
Nos soluços
Armadores para a vida.

MANHÃ


É manhã
e a paixão indormida
permeia a aurora insone
e os sonhos
encravados
convertem-se em desejos
e o sensualmente belo e desejado
defasado pelos desenganos
dormita quase em forma esporular
no travesseiro da desesperança
e semeia a contingência
do nunca havido
amor desacontecido
incomeçado.

MEDITAR


Meditar,
decifrar tatuagens
grafadas nos primeiros passos,
desvencilhar-se do excesso,
ser nudez,
ter pão,
água e universo.

AMOR QUE SAI DO CASULO


Existe um amor
que me devora o âmago
que me consome em chamas
que me varre
a dor
a limitação
o ser finito.
Tem um amor
que me torna inquieto
vivo
insone
que me sacode
o parado
o certo
o formalmente
lógico.
Há um amor
que me perturba a vida
que me faz sem medo
que me chama alto
que me dá coragem
que me arrebenta as grades
que me faz seguro.
Há um amor
em mim
que é conseqüência
desta universal dialética
que existe
em cada fato
em cada ato
em cada parte
em cada todo
em cada gente
em cada povo.
Existe um amor
em mim
que desafia
lutar
por tantos amores
não vindo pra todos.

26 junho 2007

O Azul Casulo


Inteligência,
incomum percepção,
sensibilidade sutil.
Untada
com o exsudato da rocha e da madeira.
Resina
Estalactite
Cristal.
.
Eram cadinhos interiores.
Não era quisto, era pérola.
Não eram flores, eram pétalas.
Não eram lágrimas, era orvalho.
Não era frieza, era receio.
Não era indecisão, era ambivalência.
Não eram temores, era cuidado.
Não era insônia, era solidão.
Negação tampouco era.
Era anafilaxia por aluvião.
A menor distancia entre dois pontos?
Simples?
Comum?
A linha reta.
A física das retóricas.
A melhor distância entre dois seres humanos?
Não deslindamos.
Sofremos com a menor distância,
entre as paralelas.
É deserto o que não cruza,
não intercepta,
não é tangente.
Para as interseções fomos feitos.
Padecer nas encruzilhadas.
As paixões,
construções sozinhas.
As tristezas,
remissões aladas em vácuos de ternura.
Refletir sob um mundo especial,
mais que compreensão, é filosofia.
Versos, esculturas, música, pintura, canto, medicina.
Inscrições de um ser maior que o ser.
A poesia não cala.
Inutilmente figuramos a vida em molduras.
Longevidade em anos.
Hábito torto.
A resina vegetal que nos disfarça,
nem a água, nem os comuns solventes,
nem o sabão ou os detergentes,
nem a faca nem os bisturis
conseguem roçar
a alma.
Certamente o âmago do azul casulo
almejava engajamento singular
na palavra,
diante da falácia
do totalitário mundo.
Deixou poemas atemporais,
se decodificou em matizes pictóricos, música.
Não viveu os calendários convencionais,
nem os algarismos interessavam.
Inseminou tão competente o mundo
com seu legado,
que em trinta anos
viveu eternamente
a alegação do vivido.


Waldir Pedrosa Amorim

09 junho 2007

Canto à Mãe da Poeta Virgínia Andrade.



Pintura de autoria da poeta Virgínia Andrade, uma alusão à maternidade, sem título, datada de abril de 1978.
Reprodução fotográfica por Waldir Pedrosa de cópia do original, gentilmente oferecido por Dra. Sônia Andrade.






para Sônia Andrade








Quando a dor pode travestir-se em canto,
descortinar falésias,
aninhar-se em vales,
enaltecer os píncaros.

Não mais é dor somente.
Não é mais somente.
Não é só,
nem dor.

Transcendeu o mais que dor.
É intenso amor que cheira,
apalpa, advinha.
Tornou-se enlevo - sabedoria - compaixão.

Desembrulha o que é do sol.


A existência humana
transpôs a realidade imediata.

Enquanto o somente dor,
duvida e se esmaece.
O somente amor,
acata e recria o infindável.

Waldir Pedrosa Amorim João Pessoa, sábado, 9 de junho de 2007

30 maio 2007

TRANSE





















libertação do duro superego
desconexão de estímulos
vista grossa ao entorno
automação
abstração do in
exaltação do out
afinidade ao sono em sendo vigília
mergulho
transporte
sonho
inspiração
apocalipse em sendo começamento
gênesis
associação imagética
poesia.

Waldir Pedrosa Amorim

Foto reprodução: Salvador Dali -Paranoiac visage.

20 maio 2007

PELAS CALÇADAS




Andarei pelas calçadas,
soletrarei
lá fora
ao sol exposto
gentemundo
contagioso
mundo-serpente.

Avesso,
sem endereço,
do seio das quimeras,
ao mundo pulsátil, febril
dos passeios.


Repararei as vitrines.
[aquelas de vidro,
não!]
As que comerciam pitomba, jabuticaba, cajá, umbu, milho assado.
As outras -
homem da maleta com suas farmácias,
engolidor dos cacos do vidro das vitrines,
embolador de versos.

Redimirei os tantos versos
acolchoados em sombras de dicionários.

Meus ecos, descartarei na caixa de despejos.
Atentarei ao burburinho,
tricotear dos sons nas passarelas.

Calarei meu pássaro
devoto das prisões,
submisso
ao alpiste das manhãs.

Sentarei na praça,
ao sabor de pombos e pardais,
coaxar dos sapos,
assentimento das lagartixas,
rodopio dos embuás,
frenesi das térmitas,
vôo feminal das borboletas.

Abeberarei ao chafariz,
cochichador de onomatopéias.

Largarei as prosas,
pelos gorjeios de crianças,
vai-e-vem rouco dos balanços,
gangorras, burricas.
Travessões do sobe e desce de gente travessa.

Não pesarei o tempo,
nem seccionarei o mundo
em cortes sagitais.

Trocarei as compressas das feridas,
pelo algodão doce.
A maçã das dietas,
pela dos amores.

Inspirarei profundo o aroma das pipocas,
em paz inocente,
com o dos carburantes.

Dentes sujos, antiga nicotina,
picolés vermelhos
tingirão minha língua,
amainarão
o amargor
da minha lira.

08 maio 2007

UM PEDAÇO DE MIM

Para Fátima no seu aniversário




um pedaço de mim
similitude
todo de mim
extasiado

rui a melancolia
do meu brado
faz lugar a alegria inaudita
uma parte de mim
alegre acorda
olhos dormidos
corpo vívido
acolhedores braços
tão iguais
ou melhor
acrescentados
das paixões e labutas submersas

um pedaço de mim
é
todo de mim
aniversaria

parece ontem
mesmas delicadezas
amor caminho

mais grande – grandalhão – maior
o ninho reinventa
partículas de sonhos
pedaços de percurso

amor em mim
confiante aventura
desdobrar em ruas
as vielas
cuidar da estrada
a vegetação
ladeia
plantar quintais
caramanchões
colher conchas
nas areias

um pedaço de mim
passeia
acede
tonturas minhas
enxerto algum
reconheceria

ouso brindar
[presente da loucura]
poema
– desapossar mercadoria –
libertar as mãos
ao aconchego
à paixão
nossos lábios beijadores

dádiva
toma em silêncio
[palavras subalternas]
amor por ti
impenitente


Waldir – 04 de maio de 2007

25 março 2007

Ao meu pai quando dos seus setenta anos.

A Wandelcy Dias de Amorim, meu pai.

Hoje maduro
e já quase finda
a década dos meus trinta anos,
páginas ansiosas de buliçoso rumo,
posto-me silente
e meditativo
nos setenta anos
que tu inauguraste!
A duras penas
fitava-te à distância...
distância enigmática
que jamais se esquece...
e hoje, o sal da vida
e os sóis desta medida
encolhem-se
e dobram-se
encurtando estes caminhos.
Montado nas pedras muitas
que ciente ou não, me legaste,
preciso às vezes, rememorar a silhueta,
dos idos tempos
ou, decifrar as charadas
de sombras ultrapassadas
compilar, os caros fios,
da teia das memórias!
Os papagaios de seda,
os canários nas campinas,
a briga de galos,
o significado do capim "barba de bode",
o feitiço da animação de desenhos,
o mundo cinema
em bloquinhos de anotação
e a lâmpada oca,
que servia de lentes
à projeção de transparências.
O passeio no quadro da bicicleta de aluguel
(como eu desejava possuir uma só minha),
o bote, singrava o açude de Dois Irmãos
e depois...
os modernos “pedalinhos...”
Os carrinhos de lata de leite Ninho,
latas de goiabada
e a misteriosa pedrinha
que incendiava! (carbureto, terra e água)
incendiando fantasias!
e a bola de meia
e os mamulengos
e as visitas aos navios do LLoyde Brasileiro (com dois L)
arrematado com Patrimônio Nacional (que para mim era apenas uma extensão da mesma marca)
e os chaveiros, bugigangas do loide
e sua misteriosa gaveta
com canetas de mulher pelada, calendários e cromos,
trancados a sete chaves (que eu possuía todas)
E seu Silva, mestre esmerado
da taipa e do reboco!
E seu Oitenta, mestre sabido,
dos Baixo-falantes (rádios de cristal de Galeno)
E seu Simplício, mestre dos carros
mecânico supimpa
fervoroso de São Jorge
e, só depois me disseste,
fervoroso por homem também!
(a primeira bicha, talvez, que eu tive notícia).
E o cais do porto do Recife,
àquela época, pra mim
cais, armazéns, navios todos teus
onde eu com orgulho,
navegava com o herói
dono do porto
senhor da barra
dos meus horizontes de menino
a conferir cargas
a calcular os papéis denominados
"conhecimentos"
um herói,
funcionário autárquico! (eu enchia a boca)
funcionário público!
Chefe da seção de Faltas e Avarias
como eu entendia-lhe o cargo
sem observar-lhe o significado do ofício!
Que importa, saber o ofício dos heróis!
Importa,
hoje, relembrando...
conectar as delícias das lembranças de menino - filho
com o carinho de pai e filho que te tenho!
Nestes setenta anos que não nos envelhecem!

23 março 2007

APRENDIZADO

O saber
não é uma seta
contra o outro.
É alimento
na mesa
compartilhado.

Waldir Pedrosa Amorim
sábado, 30 de dezembro de 2006

POEMINHA PARA MARIA

( dedicado a Adriana e Nelly)


Olha Maria,
já consigo enxergar
teus olhinhos fitando o mundo
de Adriana que te espera.

Já consigo vislumbrar
você com seus olhinhos
enchendo de história
a história dela

Já consigo perceber
em sua meiga mãe
as histórias
que ela terá a lhe contar.

Olha Maria,
não há nada a temer na vida
há o que palmilhar a cada instante,
transformando a obrigação
num doce brinquedo.

Em qualquer instante da vida,
difícil, ingrato ou apenas sombrio,
desejo que sua força de mulher
resgate uma alegria para si e para todos.

Waldir Pedrosa Amorim
(tio-avô pela primeira vez)
João Pessoa quinta-feira, 12 de outubro de 2006 – Dia da Criança

16 fevereiro 2007

PREVALECE

O que se ama
O que se tece
O que se pui
O que se esgarça

ALMA MÉDICA

Trato a doença
com a intimidade
de um evento,
uma alegoria,
sucedida na alma, no corpo
ou,
no tempo
de uma pessoa
que poderia ser Eu.

MENINA COLORIDA

Tenho que falar
que te amo,
menina colorida,
só pra que não escape
este ensejo de te ter, flor distraída.
Pingada de encanto
neste canto da vida.
Terna...
Mais que perfeita...
Figura de amiga sabida,
ensopada do orvalho,
que a toalha não enxuga.

PEQUENEZ HUMANA

Pequeno
não por ser débil.
Pequeno
por exercitar grandes
atos mesquinhos.

ESCALA DE VALORES

Fazer um verso,
vale mais do que tudo quanto faço.
Bulir um verso relê-lo, senti-lo,
é ter espanto
com uma porção de mim
que nunca decifro.

MURCHAS

as flores dormem
ou morrem
nunca
acordam nem
murchas
desabrocham.

EXERCÍCIO DE IMPACIÊNCIA

Manter o discernimento,
a indignação,
a raiva,
a teimosia.

DEPRIMIDA

Minha alma, artesã de tristezas
e melancolias
confecciona sazonalmente
o cenário debilitado
onde amargo
a consciência do tempo
em meus lençóis.

LUA

Baços olhos ardem.
No efêmero e molhado chão,
há imensidão no espelho: uma lua,
despencando clarão.

Volátil é a vida
volúveis os olhos
Na alma,
volúpia desmedida.

IN MEMORIAM (na lembrança)

Ao Professor Gayotto.

O que dizer da morte, da vida e da dor, senão,
que nos inquietam.

Por certo,
fomos feitos para desacatar a finitude.

Canta um poeta de minha aldeia:
“Quem tem saudade nunca está sozinho,
tem o carinho da recordação “.

Até parece,
que fomos feitos para isso:
acatar os ciclos da vida com sobressalto.

Engano.
Seja a eternidade indissociável, indivisível,
a esquartejamos
em imortais momentos
sem guarida ao desassossego.

E a vida encanta-se nos momentos bons e brinca de
eternidade...

E a eternidade brinca com a vida de esconde-esconde.

UTOPIA NECESSÁRIA

Há que se diuturnamente
refazer as utopias,
este estado que tece
sonhadores, poetas e filósofos.

Há que se reinventar a roda.
Nos deglute o amanhã,
estado que desatualiza
os comuns e incomuns viventes.

Pés no efêmero que derrota,
olhos e asas no infinito que transcende.

O TEMPO

Não quero o tempo tópico
senão, sistêmico.

Quero ontens, hojes e amanhãs ardentes.
Quero frios, quentes, cores vivas, desbotadas...
Tempo que não é só presente.

Quero enredo,
tempo sem instantâneo.

O tempo histórico e o
batalhado tempo
de arquiteturas,
desejo loucamente.

A FLOR DA PELE

Epiderme sensitiva que sinalizas
as paixões e quimeras que forjei.
Epiderme já curtida e já vivida,
recrudesce, as lembranças que andei.

Inda eriças meu pelo.
Inda me esfrias, inda me dás rubor.
Inda me trazes o gaguejo, o tremor.
Inda aromas no meu âmago a minha dor.

Epiderme debulhada de paixões,
de cantigas antigas,
velhos poemas,
insistentes memórias juvenis.

Desnuda-me,
retira-me a flor da pele,
de flor e pele já prescindo.
Instila-me um pouco a pouco de loucura:
“... grandes goles, d’água do esquecimento...”,
o imprevisível curso de um barco à deriva,
a paz,
com a infusão do
inconstatável.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele