16 fevereiro 2007

PREVALECE

O que se ama
O que se tece
O que se pui
O que se esgarça

ALMA MÉDICA

Trato a doença
com a intimidade
de um evento,
uma alegoria,
sucedida na alma, no corpo
ou,
no tempo
de uma pessoa
que poderia ser Eu.

MENINA COLORIDA

Tenho que falar
que te amo,
menina colorida,
só pra que não escape
este ensejo de te ter, flor distraída.
Pingada de encanto
neste canto da vida.
Terna...
Mais que perfeita...
Figura de amiga sabida,
ensopada do orvalho,
que a toalha não enxuga.

PEQUENEZ HUMANA

Pequeno
não por ser débil.
Pequeno
por exercitar grandes
atos mesquinhos.

ESCALA DE VALORES

Fazer um verso,
vale mais do que tudo quanto faço.
Bulir um verso relê-lo, senti-lo,
é ter espanto
com uma porção de mim
que nunca decifro.

MURCHAS

as flores dormem
ou morrem
nunca
acordam nem
murchas
desabrocham.

EXERCÍCIO DE IMPACIÊNCIA

Manter o discernimento,
a indignação,
a raiva,
a teimosia.

DEPRIMIDA

Minha alma, artesã de tristezas
e melancolias
confecciona sazonalmente
o cenário debilitado
onde amargo
a consciência do tempo
em meus lençóis.

LUA

Baços olhos ardem.
No efêmero e molhado chão,
há imensidão no espelho: uma lua,
despencando clarão.

Volátil é a vida
volúveis os olhos
Na alma,
volúpia desmedida.

IN MEMORIAM (na lembrança)

Ao Professor Gayotto.

O que dizer da morte, da vida e da dor, senão,
que nos inquietam.

Por certo,
fomos feitos para desacatar a finitude.

Canta um poeta de minha aldeia:
“Quem tem saudade nunca está sozinho,
tem o carinho da recordação “.

Até parece,
que fomos feitos para isso:
acatar os ciclos da vida com sobressalto.

Engano.
Seja a eternidade indissociável, indivisível,
a esquartejamos
em imortais momentos
sem guarida ao desassossego.

E a vida encanta-se nos momentos bons e brinca de
eternidade...

E a eternidade brinca com a vida de esconde-esconde.

UTOPIA NECESSÁRIA

Há que se diuturnamente
refazer as utopias,
este estado que tece
sonhadores, poetas e filósofos.

Há que se reinventar a roda.
Nos deglute o amanhã,
estado que desatualiza
os comuns e incomuns viventes.

Pés no efêmero que derrota,
olhos e asas no infinito que transcende.

O TEMPO

Não quero o tempo tópico
senão, sistêmico.

Quero ontens, hojes e amanhãs ardentes.
Quero frios, quentes, cores vivas, desbotadas...
Tempo que não é só presente.

Quero enredo,
tempo sem instantâneo.

O tempo histórico e o
batalhado tempo
de arquiteturas,
desejo loucamente.

A FLOR DA PELE

Epiderme sensitiva que sinalizas
as paixões e quimeras que forjei.
Epiderme já curtida e já vivida,
recrudesce, as lembranças que andei.

Inda eriças meu pelo.
Inda me esfrias, inda me dás rubor.
Inda me trazes o gaguejo, o tremor.
Inda aromas no meu âmago a minha dor.

Epiderme debulhada de paixões,
de cantigas antigas,
velhos poemas,
insistentes memórias juvenis.

Desnuda-me,
retira-me a flor da pele,
de flor e pele já prescindo.
Instila-me um pouco a pouco de loucura:
“... grandes goles, d’água do esquecimento...”,
o imprevisível curso de um barco à deriva,
a paz,
com a infusão do
inconstatável.

Waldir Pedrosa Amorim in: O Avesso da Pele