25 março 2007

Ao meu pai quando dos seus setenta anos.

A Wandelcy Dias de Amorim, meu pai.

Hoje maduro
e já quase finda
a década dos meus trinta anos,
páginas ansiosas de buliçoso rumo,
posto-me silente
e meditativo
nos setenta anos
que tu inauguraste!
A duras penas
fitava-te à distância...
distância enigmática
que jamais se esquece...
e hoje, o sal da vida
e os sóis desta medida
encolhem-se
e dobram-se
encurtando estes caminhos.
Montado nas pedras muitas
que ciente ou não, me legaste,
preciso às vezes, rememorar a silhueta,
dos idos tempos
ou, decifrar as charadas
de sombras ultrapassadas
compilar, os caros fios,
da teia das memórias!
Os papagaios de seda,
os canários nas campinas,
a briga de galos,
o significado do capim "barba de bode",
o feitiço da animação de desenhos,
o mundo cinema
em bloquinhos de anotação
e a lâmpada oca,
que servia de lentes
à projeção de transparências.
O passeio no quadro da bicicleta de aluguel
(como eu desejava possuir uma só minha),
o bote, singrava o açude de Dois Irmãos
e depois...
os modernos “pedalinhos...”
Os carrinhos de lata de leite Ninho,
latas de goiabada
e a misteriosa pedrinha
que incendiava! (carbureto, terra e água)
incendiando fantasias!
e a bola de meia
e os mamulengos
e as visitas aos navios do LLoyde Brasileiro (com dois L)
arrematado com Patrimônio Nacional (que para mim era apenas uma extensão da mesma marca)
e os chaveiros, bugigangas do loide
e sua misteriosa gaveta
com canetas de mulher pelada, calendários e cromos,
trancados a sete chaves (que eu possuía todas)
E seu Silva, mestre esmerado
da taipa e do reboco!
E seu Oitenta, mestre sabido,
dos Baixo-falantes (rádios de cristal de Galeno)
E seu Simplício, mestre dos carros
mecânico supimpa
fervoroso de São Jorge
e, só depois me disseste,
fervoroso por homem também!
(a primeira bicha, talvez, que eu tive notícia).
E o cais do porto do Recife,
àquela época, pra mim
cais, armazéns, navios todos teus
onde eu com orgulho,
navegava com o herói
dono do porto
senhor da barra
dos meus horizontes de menino
a conferir cargas
a calcular os papéis denominados
"conhecimentos"
um herói,
funcionário autárquico! (eu enchia a boca)
funcionário público!
Chefe da seção de Faltas e Avarias
como eu entendia-lhe o cargo
sem observar-lhe o significado do ofício!
Que importa, saber o ofício dos heróis!
Importa,
hoje, relembrando...
conectar as delícias das lembranças de menino - filho
com o carinho de pai e filho que te tenho!
Nestes setenta anos que não nos envelhecem!