20 maio 2007

PELAS CALÇADAS




Andarei pelas calçadas,
soletrarei
lá fora
ao sol exposto
gentemundo
contagioso
mundo-serpente.

Avesso,
sem endereço,
do seio das quimeras,
ao mundo pulsátil, febril
dos passeios.


Repararei as vitrines.
[aquelas de vidro,
não!]
As que comerciam pitomba, jabuticaba, cajá, umbu, milho assado.
As outras -
homem da maleta com suas farmácias,
engolidor dos cacos do vidro das vitrines,
embolador de versos.

Redimirei os tantos versos
acolchoados em sombras de dicionários.

Meus ecos, descartarei na caixa de despejos.
Atentarei ao burburinho,
tricotear dos sons nas passarelas.

Calarei meu pássaro
devoto das prisões,
submisso
ao alpiste das manhãs.

Sentarei na praça,
ao sabor de pombos e pardais,
coaxar dos sapos,
assentimento das lagartixas,
rodopio dos embuás,
frenesi das térmitas,
vôo feminal das borboletas.

Abeberarei ao chafariz,
cochichador de onomatopéias.

Largarei as prosas,
pelos gorjeios de crianças,
vai-e-vem rouco dos balanços,
gangorras, burricas.
Travessões do sobe e desce de gente travessa.

Não pesarei o tempo,
nem seccionarei o mundo
em cortes sagitais.

Trocarei as compressas das feridas,
pelo algodão doce.
A maçã das dietas,
pela dos amores.

Inspirarei profundo o aroma das pipocas,
em paz inocente,
com o dos carburantes.

Dentes sujos, antiga nicotina,
picolés vermelhos
tingirão minha língua,
amainarão
o amargor
da minha lira.