01 julho 2007

Papagaios (pipas, corujas)


O menino
brincava com o papagaio...

O vento
brincava com o papagaio...

Soprava
o roncador,
a linha de dois zeros,
o cerol,
o cabresto,
as mensagens em tiras de papel.

E o vento, soprava
sonhos,
devaneios,
cumplicidades.

Aprendera com o pai
a confeccionar e apreciar papagaios de papel
e por contingência a contemplar o vasto céu.

E o vento exorcizava...
as penas,
os pecados,
as mágoas,
as frustrações dos dias de menino.

E o vento, soprava-lhe...
a tez,
os cabelos,
o viço generoso da idade,
e as fantasias.

Simultaneamente enxotava
os fantasmas
os terrores
as assombrações...
que sumiam...
num rabo de papagaio ou de pipa
sustentados no vento
e no tênue barbante que o ancorava à terra!

E...
o menino
seguiu lembrando
o papagaio que voava
o vento que soprava
o roncador,
os sonhos,
as mágoas,
o doce aprendizado de deleites e desafios...
e a proteção daquele velho amigo
que lhe ensinara a bater asas
e a ganhar o céu
tal e qual os papagaios de papel
e seus referenciais .

E...
bateu-lhe a saudade,
a nostalgia,
e a calma seguida da paz
e foi dormir adulto,
seus sonhos de criança
achando que na vida tudo se relacionava.

Lições de dialética









(a Pedro, Paulo e João)

Meu filho,
embora não pareça,
tudo se move.

As pequeninas partículas,
desta aparente inerte forma.
A força de coesão dos átomos
desta mesa de trabalho
e mesmo desta pedra bruta, dita:
matéria inanimada.

Tudo oscila entre dois pólos
contraditórios,
e o sim que une
e o não que afasta;
aparentemente distintos,
são o mesmo sim e não.
Os contrários se opõem
é bem verdade,
mas, mesmo nesta
maravilhosa desigualdade,
há uma imensa unidade
entre os contrários.
Tudo se transforma
e tanto e tanto
que mesmo o ontem
já tendo sido o hoje de outrora,
é negado
pelo hoje de agora.
Nada é fixo,
nada é imutável
e mudar é uma peculiaridade
da matéria.
Importa conhecermos
como muda!

Tudo enfim,
rege-se pelas leis
desse perene movimento.
Nada é estático
nada é eterno
nada é absolutamente infinito.

As verdades,
são as leis que regem o mundo,
em cada particularidade
e a verdade única
nada mais é
que o leque de verdades relativas.

Na natureza como na vida,
tal é o movimento observado.
A sociedade e a história dos homens,
assim se movem,
desde você,
até seus antepassados!

Urge
não dissociar,
a vida da natureza
e a vida e a natureza da história.

Urge
uma sintonia com o universo
no caminho de aprimorá-lo.

Cantiga de esperar o filho que vai nascer.



(para Joãozinho, quando ainda não havia nascido)

Te quero
meu pequenino,
Te quero,
amiguinho de cinco meses de útero.

Te quero
e te quero muito
e assim também o quer,
esta tua familhinha.

Te queremos
companheirinho
e também te quer o mundo,
que difere um pouco
deste teu mundo de "barriguinha".

Nele não acharás gratuita,
esta placenta que te nutre...
mas, na medida do possível ,
e até te acostumares,
seremos nele, nós,
tua placentazinha.
Vem com força
e suga
e mama
e reclama
e te defende
e ama
e sobretudo ama
ama livremente!

Cava com garra a tua independência!
anda com teus pés,
tira tuas conclusões
derrota tuas dúvidas
e as recria!

Aprende, aprende muito.
com o mundo
com os outros
contigo mesmo.

Exerce o feitiço
de aprender com regras tuas,
pela observação das coisas
que não te ensinarem.

Se um dia
encontrares-te triste,
vê, se não é também dos outros,
a tristeza que há em ti.

Caso o seja,
universaliza-a,
junta-te aos outros
e vence-a unido.
Faze o mesmo,
se te sentires oprimido.

Por outro lado,
luta para que a tua alegria,
seja a de muitos...
e desconfia sempre,
se no teu universo,
forem poucos,
o número dos contentes.

Luta contra qualquer tipo de grilhão,
e para que o último cordão,
este, que te desligaste ao nascer,
tenha sido o biológico cordão,
do teu umbigo!

Nunca te desesperes,
"há sempre uma luz
ao fim de cada túnel"
Busca a verdade
por amarga que pareça,
e te repito,
ama
antes de tudo, ama...
não só aos outros,
também a ti,
com amor,que te geramos um dia!

Córregos da infância

Barquinhos de papel
jogados
na poça de chuva
na chuva de lama
dos córregos
da infância!
Que caminharam,
pelotões
teleguiados
enquanto a chuva existia.
Correram
cedo,
sem medo.
Molharam
rápido,
e foi cedo.
Rasgaram
cedo,
e foi logo.
Sonharam
tanto,
e foi tudo.
Cruzaram
rios
e foi medo.
e carregaram em viagem efêmera
a fantasia
jogada
na poça de lama
dos córregos
da infância.

Quimera


Um dia,
hei de sonhar um sonho
infindo
e desacostumado de ter tempo
e de ter pressa.

Um dia,
sonharei um sonho louco,
sem metáforas,
curtido...
desacostumado
de ter senso
de ter nexo...
só desejo
limpo ou sujo
radiografia de mim.

Maturidade



A maturidade
futuro do pretérito de quem vive.

Decantou-me o sentimento,
assaltou-me de perplexidade,
remodelou–me o assombro,
apaziguou-me a ambivalência existencial.

Forjou-me dúvidas,
furtou a puerilidade da alegria plena.
arrancou a irrestrita certeza e
abalou-me a fé .

Inesperada adolescência,
ebulição climatérica na alma dos meus conceitos,
propiciou:
medo,
incontida pressa,
paradoxal dimensão da confiança,
e de referenciais,
cultos, ígneos,
imanentes...
adquiridos:
na palmilha do tempo,
no incerto percurso vital,
na poeira das vias.

Caminho da caducidade,
fatal estagnação,
limite de idealizações exigentes.
Deságüe da finitude,
cantada no versejar da infância.

Adicionou temperos novos
a indefectíveis sentimentos:
uma bondade
antes que ingênua,
ciosa de que o bom e o belo,
são cadinhos
de profundos e eternos movimentos!

Uma tolerância ,
com o ritmo dialético do tempo!

Uma fé ,
que saboreia o credo!

Uma esperança,
que não carece de prazos!

Ampulheta

Tempo
ampulheta de grãos medonhos
areia, terra, caminhada
terra e areias não mais caminhadas outra vez...
Tempo...
vela ardente,
cera, queimante chama,
sem retardo e sem esperas
derretendo futuros...
Tempo, rio solto
correnteza
doce água
metamorfoseando as margens de terra...
ocre terra...
perdido porto...
ancoradouro sem memórias...
em oceanos sem mente.
Tempo...
tão imenso que nos humilha
tão voraz que nos extingue...
tão soberano que nos esquece.

Loja de brinquedos


Tempo,
loja de brinquedos
fechada para o almoço.
Tempo,
vitrine de brinquedos
proibidos de tocar.
Tempo,
tic-tac,
na hora de brincar.

ORGULHO


Bom ou mau?
Nem mau, nem bom!

Humano o bastante
para permanecer aceso,
sem se dar conta.

Empana a clareza
das coisas simples e diretas.

Subverte a aferição da nossa balança para mais...
Remédio,
quando deprimidos.
Veneno,
quando prepotentes.

Exercício,
quando sensatos.

AMOR E CIÚME


O amor,
feixe de luz refratado sobre prisma,
é um arco-íris e comporta:
dispersão,
espectro,
nuances,
tonalidades,
matizes,
peculiaridades,
decomposição,
iluminação,
sombra.

O ciúme,
feixe de luz refratado sobre lente convergente,
é um foco:
incide,
localiza,
investiga,
concentra,
ofusca,
queima,
seca,
destaca,
expõe,
realça,
delimita.

NAVEGANTES


Feita de cuidados e descuidos,
a vida passeia,
sem referências,
pelas marés,
noites de lua.
Foto: Matisse - Dance I. Óleo sobre tela

HUMILDADE E SEU ANTÔNIMO


A humildade,
não será o orgulho reducionista,
do santo, do mártir e do herói?
Foto: Marc Chagall - Solitude - Óleo sobre tela.

CERTAMENTE...


Certamente,
a perseverança
é quem permite à borboleta
conhecer a flor,
ao colibri
provar o néctar,
ao ser humano
partilhar
a alegria e a tristeza
com intimidade.
Foto: Gauguin - Fields near Le Pouldu- Óleo sobre tela

ILHAS




Puras e diáfanas ilhas
com sossego e esperança
mentistes pra mim
que virias
encontrar-me
ao cabo
de minha pretendida construção
ao fim
do meu tormentoso investimento
comportado
estóico
esquecido de mim
para tua espera.
Ilhas,
canções que acalentei
menino
refrões que balbuciei
ingênuo
jargões decorados
que trabalhei comigo
para esta doce espera tua.
Ilhas
de prazer singelo
de lazer perpétuo
como um Éden imaginado.
Ilhas,
estórias e histórias
e contos e contas
que debulhei contrito
que soletrei aflito
na expectativa
de tua chegada triunfal.
Ilhas,
patamares e degraus
e escadas e escaladas
que percorri
sem sequer olhar pra trás.
Ilhas,
doces filhas triunfantes
rezei
e jazi pensante
e labutei e percorri arfante
e me consumi com toda a onipotência
e investi
e andei
e percorri qualquer percurso,
a todo preço,
a qualquer preço
e a toda hora
e a toda noite de insônia,
alimentava-me a aurora
de tê-las
filhas
da minha loucura
da minha insônia
da minha fiel utopia.
Ilhas,
tê-las em verso,
já quase é vê-las.
Em verso
mais que possuí-las
é ter o poder de inventá-las;
e esperar,
já sabe a merecê-las.
Se não chegares,
ancorarei meu barco
no meio deste humano oceano
travarei meus olhos e sentidos
Ilhar-me-ei sob o céu dos vagabundos.

INSPIRAÇÃO


Eis que vens
Povoas a alma
Delírio onipotente

Notas que ferem
Transpassam
Sangrar indolor
Sinfonia inacabada
Musa ardente
Composição
Música
Contínua
Continuai, continuai
Indefinidamente.

RECICLAGEM


Sonhos
Presságios
Quimeras
Recriam
Nos soluços
Armadores para a vida.

MANHÃ


É manhã
e a paixão indormida
permeia a aurora insone
e os sonhos
encravados
convertem-se em desejos
e o sensualmente belo e desejado
defasado pelos desenganos
dormita quase em forma esporular
no travesseiro da desesperança
e semeia a contingência
do nunca havido
amor desacontecido
incomeçado.

MEDITAR


Meditar,
decifrar tatuagens
grafadas nos primeiros passos,
desvencilhar-se do excesso,
ser nudez,
ter pão,
água e universo.

AMOR QUE SAI DO CASULO


Existe um amor
que me devora o âmago
que me consome em chamas
que me varre
a dor
a limitação
o ser finito.
Tem um amor
que me torna inquieto
vivo
insone
que me sacode
o parado
o certo
o formalmente
lógico.
Há um amor
que me perturba a vida
que me faz sem medo
que me chama alto
que me dá coragem
que me arrebenta as grades
que me faz seguro.
Há um amor
em mim
que é conseqüência
desta universal dialética
que existe
em cada fato
em cada ato
em cada parte
em cada todo
em cada gente
em cada povo.
Existe um amor
em mim
que desafia
lutar
por tantos amores
não vindo pra todos.