31 dezembro 2008

INTENSAMENTE

Veloz a vida

Mais rápidos os sonhos

Que a ampliam.


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O CONHECIMENTO DOS HOMENS

Entrar nos livros feito traças

Vasculhando

Combinações imprevisíveis.


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Cata-vento

Cata-ventos pequeninos

Explicam o vento

Que sopra a ouvidos surdos.


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SERVENTIA

Ninho de pássaros vazio


Entrelaçado para o desaninho


Instante do vôo.



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Intento

A palavra pesada

Alvejou uma teia delgada

Que se construía.

LIÇÕES DO AMOR

Que o amor não doa,

Não clausure

Não se justifique

Nem penoso e árduo seja.

O amor é

Ninguém se dá conta

De que seja tão bom.

INCOMPLETUDE

Minhas mãos permanecerão sempre vazias
como se os instantes
nada mais entendessem que de despedidas.
Como se o alfaiate que confecciona,
ficasse nu a cada entrega e,
desabrigado do frio, restasse
o tecelão.

As Palavras

Contas de vidro multifacetadas,
as palavras,
entremeio de éter e de argila
denunciam o ontem
o amanhã,
a realidade
e as quimeras.

O Tempo e o Poeta

Fora do tempo
não sou atemporal
sou bizarro,
misantropo,
quasimodesco.
não estou aqui
nem vivo agora
sou instantes do ontem
sou miçangas do amanhã
sou poeta.

28 julho 2008

15 julho 2008

A feminina nuca.



Os cabelos
enrolados
despiam-lhe a nuca
expondo a penugem
e a raiz das melenas.

Vislumbrei
o pescoço de uma garça
e o seu branco córrego,
vórtice sensual.

Altiva e grácil
a silhueta
tornara-se
deleite e súplica.

E o que mais fosse
seria despenhadeiro;
e o que mais falasse
era rubor, era entrega.

Waldir Pedrosa Amorim


Fotografia : Audrey Hepburn Fonte: http://www.classicfilmstars.com/hepburnaudrey.htm

14 julho 2008

CAFÉ

































As auroras
contidas
no fundo de uma xícara
espargem odor.
A dor matinal
de café preto
devassa coanas adormecidas.
Faz sair do estado dormente
conjecturas,
retraços de alcova.

Lençóis, travesseiros,
um corpo sulcado,
ensarilhado
foi desmanche despojado da noite.
Desperta adoentado
com seus apetrechos
que sustêm a força
do espertar.
Pijamas rotos, macios,
pele, da pele íntima,
guardam
as inhacas do corpo sonâmbulo.
Teimosas,
não se desgrudam da sedução noturna,
não abandonam olores e vícios de leito.
Despolpada do silencio e da calmaria,
a alma,
flor noturna, dama da noite,
se acumplicia
de um trago da bebida arábica.
Torrada,
mitigada em fino grão, ou pó, ou cinza,
escoa hidratada
em néctar infundido e premido.
É o alvorecer do dia,
antes da plenificação das matinas.
É tônico,
é apenas desjejum
para quebrar a fome, e,
ainda é arremate
e ainda é o galo e o despertador
prenunciadores das manhãs.

É o ancestral açoite químico da jornada.

Waldir Pedrosa Amorim

06 maio 2008

Doce Mistério

Camille Claudel, Torse de Clotho, vers 1893
torse, modèle en plâtre Musée D'Orsay.



Há um espaço
fora do espaço
um tempo
fora do tempo
onde quem
perdeu a memória
o contato
não perdeu
um e outro.


Waldir, maio de 2008
Un Doux Mystère

Il y a un espace
hors de l'espace
un temps
hors du temps
où celui
qui a perdu la memoire,
le contact,
n'a perdu
ni l'un ni l'autre.

13 abril 2008

Coração tolo


Perdoe
a saudade que sinto
amiga,
meu coração poeta
é tolo e tonto;
não tece encantos prisioneiros,
alegra-se com deslumbramentos livres,
entretanto,
quem sabe manco, ou carente,
se abastece de reciprocidade,
em qualquer coisa.

Foto Reprodução: Monet - Waterlilies and japanese bridge

Rua Noturna





Na rua noturna
copos noctívagos
brindavam restos diurnos,
fantasias de desejos
dispensados de dormir para sonhar.


Waldir
Foto reprodução : Pissarro - Boulevard Montmartre by night

FÓSFORO E PALHA - DESENLEIO



O ente que replica
ações do cotidiano
por ofício,
é necessário e necessitado.
Experimentou ou experimenta
tempos criativos
antes do tédio.
Mas...
quem nasceu fósforo e palha,
anseia urgentemente
desenlear-se do cotidiano,
ser artista
antes que caia o pano.

Waldir março de 2008

Reciprocidade - para Immanuel Kant















É linguagem
desde a compreensão de alteridade.
É entendimento
desde a descoberta de diversidade.
É simultaneidade
desde o descortino da observação.
É complementaridade
desde a percepção da interação
É inteligência
desde o vislumbre da incompletude.

Waldir


12 de abril de 2008

Foto documentação: Retrato de Immanuel Kant em uma aquarela de Gottlieb Doepler, 1791

Rebeldia





Não viver,
é aquietar-se.
Morrer,
é não transgredir.


Waldir Pedrosa Amorim


Foto Reprodução: Blue II - Joan Miró

09 abril 2008

A GUERRA




Quem visita destroços
ou o ódio corriqueiro das cidades, sabe que nunca houve paz.




Waldir
Foto-reprodução: 1) Dali - The face of War 2) Picasso - Guernica

08 abril 2008

ESTIOLAMENTO


O limite da existência
não entristece por ser inexorável.
Estiola,
a quebra indesejável de continuidade,
ante papéis ainda não escritos.

Waldir Pedrosa Amorim

Foto-reprodução: Delacroix - The sea at Dieppe Óleo sobre tela

02 abril 2008

01 abril 2008

A tristeza das cidades





Nossa tristeza é a das cidades.
Perdemos a harmonia dos reinos,
das espécies,
a primazia da sabedoria.
A tristeza das cidades
construímos,
com a devoção das traças e dos cupins.

A BALA



a bala
o confeito
o açúcar
cumprem o mesmo feito
ternificar a dor
que não tem jeito.