15 julho 2008

A feminina nuca.



Os cabelos
enrolados
despiam-lhe a nuca
expondo a penugem
e a raiz das melenas.

Vislumbrei
o pescoço de uma garça
e o seu branco córrego,
vórtice sensual.

Altiva e grácil
a silhueta
tornara-se
deleite e súplica.

E o que mais fosse
seria despenhadeiro;
e o que mais falasse
era rubor, era entrega.

Waldir Pedrosa Amorim


Fotografia : Audrey Hepburn Fonte: http://www.classicfilmstars.com/hepburnaudrey.htm

14 julho 2008

CAFÉ

































As auroras
contidas
no fundo de uma xícara
espargem odor.
A dor matinal
de café preto
devassa coanas adormecidas.
Faz sair do estado dormente
conjecturas,
retraços de alcova.

Lençóis, travesseiros,
um corpo sulcado,
ensarilhado
foi desmanche despojado da noite.
Desperta adoentado
com seus apetrechos
que sustêm a força
do espertar.
Pijamas rotos, macios,
pele, da pele íntima,
guardam
as inhacas do corpo sonâmbulo.
Teimosas,
não se desgrudam da sedução noturna,
não abandonam olores e vícios de leito.
Despolpada do silencio e da calmaria,
a alma,
flor noturna, dama da noite,
se acumplicia
de um trago da bebida arábica.
Torrada,
mitigada em fino grão, ou pó, ou cinza,
escoa hidratada
em néctar infundido e premido.
É o alvorecer do dia,
antes da plenificação das matinas.
É tônico,
é apenas desjejum
para quebrar a fome, e,
ainda é arremate
e ainda é o galo e o despertador
prenunciadores das manhãs.

É o ancestral açoite químico da jornada.

Waldir Pedrosa Amorim