28 março 2009

Os ritos que passaram.

Nossa mãe

dá-me um Diamante Negro

eu perdi

o gosto dos chocolates

do chá preto com torradas

na Casa Matos

da Geléia de Mocotó Colombo

dos Tostines

dos biscoitos Du Chen

e do Cachorro Quente da Casa dos Frios.

Nosso pai

vamos tomar o Leite Maltado

na Galeria do Recife passado

ou o Caldo de Cana

na moenda, com gelo e

peneirado.

Roletes de cana, de cana caiana, rolete patrão, é três um tostão.

Quem sabe,

aquele prato de Chambaril

ou aquele outro de Mocotó,

melhor ainda, uma Rabada de Boi

e uma cerveja bem gelada.

Nossa mãe e nosso pai

vamos almoçar uma dobradinha com feijão branco

no domingo

cheia daqueles nomes tão bonitos,

dado ao miúdo dos ruminantes.

No outro domingo

uma galinha bem gorda, com cabidela,

meus serão

o fígado, o coração a moela e o sobrecu,

feijão, farinha, arroz, pimenta

e bastante osso,

eu gosto de roer, até a vida!

Quem dera

no outro final de semana,

cheguemos cedo

para espreitar

o vendedor de caranguejo

no Mercado da Encruzilhada.

Quem sabe em Olinda

ainda encontre agulhas fritas

e em Rio Doce

uma posta de Cavala.

Nossos pais,

sinto a falta

dos sabores amigos,

das ternuras com endereço,

dos laços sequer escolhidos.

Ficaram todo este tempo

escondidos

e em sabores

os tenho a debulhar.

Pouco me resta,

a casa da infância

está repartida, desfigurada

daqui a pouco

terá desaparecido

na tarde

como

calavam as cigarras

tão logo

a noite sorrateira

descia

lá no quintal.


Waldir Pedrosa Amorim