25 dezembro 2010

Bia e Bela - Natal em nós.


 

Eu sei

era noite de lua

um céu de verão

andava repleto de estrelas

o vento morno, acolhedor,

tangia a pele em carícias.

O Dezembro,

afeito ao congraçamento

entre as pessoas, prosseguia

mesmo para aquelas esquecidas

de tomar goles da afeição

às gentes de outras tribos.


 

Eu sei

do sabor de família

invasor do meu peito

exacerbando a melancolia

nos dezembros,

onde nunca vi os desconhecidos,

os humildes,

tratados verdadeiramente por irmãos.


 

Eu sei

da cidade iluminada,

da árvore de natal, da ceia, do champanhe,

do alvoroço das ruas, das mensagens

e das crianças maltrapilhas

soltas nas campinas de asfalto quente

e noites frias

mendigando espórtulas

nos semáforos.


 

Sei do formigueiro humano,

dos casebres que não vejo,

nem sinto o odor de urina,

da inhaca das roupas puídas,

da coçadura das lêndeas e piolhos,

do vácuo do estômago

e do desejo, da cobiça

saltando das vitrines submersas.


 

Eu sei

não se esmaecerá em mim,

nem cirurgicamente, nem com entorpecentes,

a dor desse sentir,

detonadora

dos ideais de modificar

a dura realidade humana;

bem conheço o peso

dos ideais sobre mim

da longeva sensibilidade

aprendida e, burilada

pelo cinzel das horas

que cedo me rasgaram

a inocência.


 

Deste dezembro em chamas,

deste dezembro em verde de esperança,

ganhei mais uma netinha,

e eis que me invade a alma,

Isabela,

no vigésimo primeiro dia,

num doce dezembro

que já se fizera particular,

desde o abril de Bia, no ano passado.

Há um ano e oito meses

se me estabeleceu

uma nova infância,

no dom do avô sensível,

agora redobrado.

Amadas, acolhidas

por Paulo, meu filho e Juliana sua mulher, há pouco,

a recém-nata e doce, Bela;

por Pedro, meu filho e Deanny sua mulher, há mais de um ano,

a saltitante e meiga Bia.

E assim, bem sei,

tivesse eu de morrer agora

e, sei que tão cedo morro,

sentiria a falta de não vislumbrar o dia,

do renascimento dito Natal,

por onde todas as crianças,

usufruíssem a humana prerrogativa

feita costume comezinho

do amor de Bia e de Bela.


 


 

Waldir Pedrosa, 24 de dezembro de 2010.

02 dezembro 2010

RIO DE JANEIRO

RIO DE JANEIRO

 


Rio de Janeiro,
“cidade maravilhosa”,
a vida trepada em favelas,
córregos,
becos e vielas
que admoestam o futuro.
A vida trepada em prédios suntuosos,
guarnecida de antídotos contra a miséria.
A vida vulnerável, confinada em comuns habitáculos
da classe média que sobe a ladeira.
A vida que comete cotidianos pelos trilhos, pelas areias, pelos bares, pelas ruas, pelos altos e baixios. A vida sem as isonomias do pão, da educação, da moradia,
do lazer, da segurança, do trabalho, da esperança.
A vida em perigo
e com fome
de fraternidade.
A enlameada vida
dos poderes podres,
que infectam há séculos
a maravilha mais querida
de cariocas e brasileiros. 
A cidade desejosa de ações grandes.

Poema publicado em 2003 no livro Amor que sai do Casulo

17 novembro 2010

A Vida é Bela


Mesmo que não o seja,
a vida é bela!
Bela,
pela mágica da fantasia e do engano,
que enfim tecemos com proficiência e destreza,
valendo o ficcional, mais que o real.
Mesmo por isto e acima disto,
Bela a vida.

Bela,
pela habilidade  da dissimulação cotidiana
ofício
ilusionista.
Bela,
por conseguirmos ser prestidigitadores
imbuídos de espelhos e platéias.
Bela.
E ainda ...
Comoventemente  bela e anticientífica.
Sua intenção,
a convicção de seu objeto - a felicidade, o amor, a eternidade, a alegria, a beleza...
Seu substantivo essencial - a perfectibilidade
Sua motivação - a superação de paixões e desejos 
irrefletidos.
Sua síntese - as relações éticas.
Sua  ferramenta,
o respeito 
[respectus: ação de olhar para trás].
Sua concretude, 
um milenar legado com sede de infinito.

28 outubro 2010

Niemeyer, nosso arquiteto.


Os sóis não lhe ultrapassam

    [menino de cento e dois anos]
você se ombreou com o tempo,
sua palavra, sua dignidade,
amor às gentes,
traços do eterno
sempre foi rega,
onde o chão esturricou.

Waldir Pedrosa Amorim

09 setembro 2010

MEDITAÇÃO




 

A solidão não seja triste,

deprimida,

nem vazio.

Instantes de solidão

se equivalham

a uma floresta de bambus

onde um monge

trafega

sem temor

de sua própria companhia.


 

Waldir Pedrosa Amorim

29 agosto 2010

Dor - faca amolada.


 

A dor interior

transborda,

desmente

a farsa competente;

única eleição:

conformar a lágrima

em pássaro

compositor.


 

Waldir Pedrosa Amorim

22 agosto 2010

Fotografia

Fotografia


Na era do umbigo
tornamos baços
o olhar sensível,
lavor da estética.


De raro em raro
assestamos a mira
ao invólucro,
entorno da existência.


A câmera e lente
não se auto-refletem,
dão-se ao uso, captam
como se capturassem
o inconsciente.


Fotogramas fixos
assentados na intenção
de um casulo feito crisálida,
são oníricos e reveladores
e o ao redor, os lados,
o abaixo, acima,
o detalhe e o dentro dele
grita, reverbera em silêncio,
provoca, modifica.

Relembrança estética compartida
é tudo isso
a arte sintética
da fotografia.



Visite
Este poema foi publicado no meu álbum do Flickr: Onde a Lente Alcança - Visões do Bessa   

15 junho 2010


 

Vou

pela estrada

conduzindo-me ao Recife

na intimidade de quem palmilha

devassados caminhos.

A topografia mudou;

nos últimos anos,

constroem uma estrada

e transferem as montanhas.

O pó do barro rodopia

atiçado pelo vento;

o barro em pó

preenche côncavos,

regatos, depressões,

desnivelamentos.

As barreiras

dia após dia,

sofrem a erosão das máquinas

sendo enviadas nas caçambas,

que as vertem em outro terreno

distante.

Quantos milhares de anos

as carrearia o vento

e a chuva

a destino semelhante. Talvez nunca.

Nunca de uma vez.

Derrubaram os maiores Ipês

que já vira. Agora troncos.

Anualmente despetalavam

lentamente

atapetando a terra de

amarelo ouro.

Eram altos, viçosos e se postavam

na beira da estrada.

Inexorável

é jamais retornarem,

nem mais ninguém vê-los.


 

Waldir 2010


 


 

10 maio 2010

MORADA


 


 

Eu morava,

a casa

das ingênuas alegrias

e tristezas.

Em tudo,

o sem medo

do infindável

e do nunca mais.

Nada,

possuía

o peso do falto,

o desejo do eterno.

As pessoas,

combinavam

com o mundo

e com a lentidão.

Enquanto eu,

tendo o assim viver

por regra,

não suspeitava

da colisão

da espécie humana;

nem,

que a parte fraca do tempo

fosse articulada;

nem me reparava

um hóspede precário.


 

Waldir Pedrosa Amorim

04 maio 2010

TE AMO



 

Te amo

e amo os dias

ao teu lado.

Os cacoetes

o odor da pele

e do sabonete.

A cabeça

sobre meu peito

em aninho

evolvendo

o protetor e dono

do teu corpo e sono.

Enleado em tuas pernas

roçando os nossos pés

agarrados

feito carrapato.

Arfantes de prazer

de gozo

do azo animal

franqueador do desejo

e preceptor das fronteiras.

Companhia

reflexão

invenção

coragem

de perdurar as conquistas.

Amo sim,

a mulher, que a mim ama;

possuidora

do caleidoscópio

denunciador

da imperfeição

da sucumbência

da pertinácia

da sabedoria

da comiseração

da dor, alegria e esperança

imensurável

humana.


 

Waldir 04/05/2010 Praia do Bessa.

21 abril 2010

Roubando um cheiro


Parece que somente nós os nordestinos sabemos verbalizar a inclusão do cheiro como demonstração de afeto. O odor peculiar de cada um, é guardado como uma impressão em nossas memórias, sem que vislumbremos . Somos seres das lembranças - delas extraímos nosso agora, nossas quimeras e nossa esperança.


 


 

Sabemos dar ao cheiro

a condição do beijo.

As pessoas

emanam nuances

em fragrâncias

próprias;

assim, as decalcamos

nas memórias.

Seres das lembranças,

da habitualidade,

da correlação,

aludimos à ternura,

à atração,

roubando um cheiro.


 

Waldir-


 

28 março 2010

Canto à Zilda - Para Zilda Arns, em sua memória.



 

Zi - zi - zi - zi-zi-zi-zi-zi-zi-zi-zi-zi-ziiiiiii

de súbito,

um coro de cigarras solfejando.

Não bastasse a inusitada sinfonia fora de hora,

um turbilhão de saúvas, formigas de asa, tanajuras,

substituíam o mourejar maníaco e fatigante

pela contrição, equivalente

a um canto chão,

encorpado ao ziziar dos grilos.

Silentes, bem-te-vis,

mais, uma bandada de aves canoras;

Indisfarçável nostalgia e vácuo.

Migrantes andorinhas zinzilulavam

mercê da tragédia

somada a outra mais medonha.

Haiti...

aqui, ali, acolá

a humanidade

prossegue

frágil em dignidade.

Um terremoto,

em campo de indigência

e desamparo.

Lá estavas,

missão de tenacidade e esperança.


 

Ah!

sobrepujar tanto ultraje

tanta miséria, dor,

que ao peito bate,

que ao senso, faz ferida.

Crer

nas potencialidades do incréu,

absorver credulidade

no homem apenas.

Acreditar na metamorfose

das hienas, dos tubarões.

Sem descuido,

ser tapigo, barricada, trincheira

dos predados,

até que se extinga a tara

dos predadores,

ou, enraíze o direito

dos excluídos.

Não importa,

placas tectônicas

ajustem-se aos vazios imensos

da terra rapinada;

ou,

seja o abalo abrupto

iminente,

insuportável contenção,

da geosfera.

Cresceu a raça humana

com amor-próprio,

superando a tempestiva

natureza,

seus sismos,

fenômenos.

Sucumbem

a terra e a raça humana,

esmaecidas,

desfocadas,

do universo ao derredor;

morada

do homem-substantivo,

da fauna e flora,

da água e pedra.


 

Zilda,

os bichos,

as crias,

a infância,

acercaram-se

de ti.

Entendias do cuidado

e da sua subtração,

Sabias estórias e história,

sonhos, brincadeiras,

comuns às crianças.

Certamente, Monteiro Lobato

te acompanhou

em muitas línguas,

a perenizar a criança

frágil animal,

dependente

do ninho quente, do agasalho,

da mãe e do pai...

da pediatra, da medicina preventiva

e da comunhão social

igualitária,

que necessitamos.

Lá estavas.


 

Ninguém dirá

por arte do destino

malévolo, com todos nós

e contigo;

que a terra engolfou-vos.

São pertinências naturais.

Alguns perceberão

que no vazio dos vivos,

residem tesouros,

enchimentos benignos,

escondidos...

Lá estavas.


 

Depois passam...

Enquanto os vivos

não se entenderem com

os vivos.


 

Waldir Pedrosa Amorim - sábado, 23 de janeiro de 2010


Fotografia Fonte: http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://mulherespaz.org.br/site/images/morfeoshow/mulheres_pel-7499/big/ZildaArns.jpg&imgrefurl=http://mulherespaz.org.br/site/index.php%3Foption%3Dcom_morfeoshow%26task%3Dview%26gallery%3D6%26Itemid%3D114&usg=__Sh4S_n2zDwgjuXQRTDlmi2CRlfI=&h=399&w=600&sz=36&hl=pt-BR&start=146&sig2=udKhVV57TZU7Y7Ixx3B-bQ&itbs=1&tbnid=slFi4tRxUsZXBM:&tbnh=90&tbnw=135&prev=/images%3Fq%3Dzilda%2Barns%26start%3D144%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DN%26gbv%3D2%26ndsp%3D18%26tbs%3Disch:1&ei=UcyvS6vMBYG8lQfgkMSQAQ

20 março 2010

METALINGUAGEM

O poema,
o quase
o sempre
o avesso,
a pele
às escâncaras.
O sobejamento
disfarçado,
aspiração
estética,
ortométrica.





Waldir

Contraponto invertível



Certas vezes
transmutar
a vida em música
subverter
a postura do sentimento,
sem perturbar a harmonia.


Waldir

13 março 2010

REFLEXOS











Encontro-me frente ao espelho
não é o mesmo homem que eu vejo;
é triste, em ruínas e selvagem,
o homem que lá estou.


 O homem que me olha do espelho
não possui mordaças, tem garras...
Pobre homem, digo-lhe e, me arremeda,
o homem que lá ficou.

Waldir Pedrosa Amorim