28 março 2010

Canto à Zilda - Para Zilda Arns, em sua memória.



 

Zi - zi - zi - zi-zi-zi-zi-zi-zi-zi-zi-zi-ziiiiiii

de súbito,

um coro de cigarras solfejando.

Não bastasse a inusitada sinfonia fora de hora,

um turbilhão de saúvas, formigas de asa, tanajuras,

substituíam o mourejar maníaco e fatigante

pela contrição, equivalente

a um canto chão,

encorpado ao ziziar dos grilos.

Silentes, bem-te-vis,

mais, uma bandada de aves canoras;

Indisfarçável nostalgia e vácuo.

Migrantes andorinhas zinzilulavam

mercê da tragédia

somada a outra mais medonha.

Haiti...

aqui, ali, acolá

a humanidade

prossegue

frágil em dignidade.

Um terremoto,

em campo de indigência

e desamparo.

Lá estavas,

missão de tenacidade e esperança.


 

Ah!

sobrepujar tanto ultraje

tanta miséria, dor,

que ao peito bate,

que ao senso, faz ferida.

Crer

nas potencialidades do incréu,

absorver credulidade

no homem apenas.

Acreditar na metamorfose

das hienas, dos tubarões.

Sem descuido,

ser tapigo, barricada, trincheira

dos predados,

até que se extinga a tara

dos predadores,

ou, enraíze o direito

dos excluídos.

Não importa,

placas tectônicas

ajustem-se aos vazios imensos

da terra rapinada;

ou,

seja o abalo abrupto

iminente,

insuportável contenção,

da geosfera.

Cresceu a raça humana

com amor-próprio,

superando a tempestiva

natureza,

seus sismos,

fenômenos.

Sucumbem

a terra e a raça humana,

esmaecidas,

desfocadas,

do universo ao derredor;

morada

do homem-substantivo,

da fauna e flora,

da água e pedra.


 

Zilda,

os bichos,

as crias,

a infância,

acercaram-se

de ti.

Entendias do cuidado

e da sua subtração,

Sabias estórias e história,

sonhos, brincadeiras,

comuns às crianças.

Certamente, Monteiro Lobato

te acompanhou

em muitas línguas,

a perenizar a criança

frágil animal,

dependente

do ninho quente, do agasalho,

da mãe e do pai...

da pediatra, da medicina preventiva

e da comunhão social

igualitária,

que necessitamos.

Lá estavas.


 

Ninguém dirá

por arte do destino

malévolo, com todos nós

e contigo;

que a terra engolfou-vos.

São pertinências naturais.

Alguns perceberão

que no vazio dos vivos,

residem tesouros,

enchimentos benignos,

escondidos...

Lá estavas.


 

Depois passam...

Enquanto os vivos

não se entenderem com

os vivos.


 

Waldir Pedrosa Amorim - sábado, 23 de janeiro de 2010


Fotografia Fonte: http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://mulherespaz.org.br/site/images/morfeoshow/mulheres_pel-7499/big/ZildaArns.jpg&imgrefurl=http://mulherespaz.org.br/site/index.php%3Foption%3Dcom_morfeoshow%26task%3Dview%26gallery%3D6%26Itemid%3D114&usg=__Sh4S_n2zDwgjuXQRTDlmi2CRlfI=&h=399&w=600&sz=36&hl=pt-BR&start=146&sig2=udKhVV57TZU7Y7Ixx3B-bQ&itbs=1&tbnid=slFi4tRxUsZXBM:&tbnh=90&tbnw=135&prev=/images%3Fq%3Dzilda%2Barns%26start%3D144%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DN%26gbv%3D2%26ndsp%3D18%26tbs%3Disch:1&ei=UcyvS6vMBYG8lQfgkMSQAQ